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domingo, 25 de outubro de 2026

Boa semana e boas leituras

Há 114 anos, em 25 de outubro de 1912, E. M. Forster chegava à cidade de Aligarh, no estado de Uttar Pradesh, na Índia. Era a sua tão sonhada primeira viagem à então colônia britânica. 

No dia 07 daquele mês, em Nápoles, Itália, ele havia embarcado no navio SS City of Birmingham rumo à Bombaim (hoje oficialmente Mumbai), encontrando o amigo Robert 'Bob Trevy' Trevelyan a bordo. Outro amigo, Goldsworthy Lowes Dickinson, juntou-se ao grupo quatro dias depois, em Port Said, no Egito. No dia 22, após desembarcar em Bombaim, o escritor hospedou-se brevemente no Apollo Hotel.


O Apollo Hotel no final do século XIX. O edifício existe até hoje, agora conhecido como Metro House. | Foto: Alamy. 


A partida rumo a Aligarh e à fronteira norte da Índia aconteceu logo no dia seguinte, passando no caminho pelo impressionante Forte de Agra. Em Aligarh, E. M. Forster reencontrou Syed Ross Masood, seu amigo e paixão platônica, que sempre o incentivou a visitar e escrever um livro sobre a a Índia. Nos cinco dias em que permaneceu naquela cidade, Forster pode ter presenciado cenas como esta da fotografia a seguir, registrada seis anos antes.


Meninos saindo da escola após as aulas em Aligarh, 1906. | Foto: AMU Campus.


No dia 30 de outubro, os amigos viajariam para Delhi, com o Forte Vermelho e a Grande Mesquita no roteiro turístico. 

Fonte: An E. M. Forster Chronology (1993), de J. H. Stape.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Inspiração no Surrey

Pintura de Holmbury St. Mary. | Foto: Dorking Museum.
Recentemente, falei de forma breve sobre o vilarejo Holmbury St. Mary, no condado de Surrey, que é apontado como a inspiração de E. M. Forster para a criação da Summer Street, em A Room with a View. 

O escritor viveu por mais de duas décadas com sua mãe na aldeia vizinha de Abinger Hammer e costumava visitar Holmbury St. Mary esporadicamente. Mesmo antes de se mudar para Abinger, Forster já frequentava o vilarejo desde a infância, em visitas a sua tia paterna Laura. 

O poeta e amigo Robert 'Bob Trevy' Trevelyan, seu contemporâneo da Universidade de Cambridge, morava em Holmbury, não muito distante de West Hackhurst, a casa onde Forster e sua mãe residiam. É possível supor que os amigos se visitaram algumas vezes, compartilhando o interesse em comum por literatura e música.

É na fictícia Summer Street que transcorre toda a segunda parte de A Room with a View, após os acontecimentos em Florença, Itália. Citada várias vezes no romance, é lá que fica situada Windy Corner, a casa da família Honeychurch, nos arredores da cidade de Tunbridge Wells (hoje Royal Tunbridge Wells) e onde moram outros personagens, como os Emersons e o pároco Sr. Beebe.   


Uma vista panorâmica de Holmbury St. Mary. | Foto: Dorking Museum.


Pois bem. Naquela ocasião, percebi que poderia explorar mais o assunto e creio que, antes de falar da inspiração em si, podemos começar pela tradução de Summer Street nas edições brasileiras. Aulyde Soares Rodrigues, que assina a tradução da editora Rocco publicada em 1988, optou por "bairro Summer Street", enquanto Marcelo Pen preferiu "rua Summer" na edição da Globo de 2006.

"A Srta. Honeychurch mora no bairro de Summer Street - disse a Srta. Bartlett, complementando a informação - e contou-me do curso de uma conversa que o senhor [Sr. Beebe] acaba de aceitar a residência..." (Primeira Parte, capítulo 1, "A Bertolini"; tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, 1988).


"A senhorita Honeychurch mora na paróquia da rua Summer", disse a senhorita Bartlett, explicando a alusão, “e ela justamente me contava, em meio à conversa, que o senhor acaba de aceitar a oferta..." (Parte I, capítulo 1, "A Pensão Bertolini"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Não pretendo entrar no mérito de qual tradução é a mais correta, contudo, se tivesse que escolher a que mais me agrada, seria a de Aulyde Soares, pelo simples fato de "bairro" englobar um espaço de maiores proporções e assim transmitir uma ideia mais ampla da vizinhança dos Honeychurch. É relevante mencionar que a absoluta maioria das fontes em inglês se refere a Summer Street como "village". 


O antigo Correio de Holmbury St. Mary, historicamente conhecido como "Post Office in the Pines" (Correio nos Pinheiros). Foto: Dorking Museum.


Vejamos mais um trecho em que o local é citado no romance:

"[...] Que lugar é este? [Cecil Vyse pergunta]

- Summer Street, é claro - disse Lucy, animando-se.

Os bosques se abriam agora, dando espaço para uma campina triangular e inclinada. Lindas casas alinhavam-se nos dois lados e a parte mais alta era ocupada por uma igreja de pedra recém-construída, de simplicidade dispendiosa, com uma torre encantadora. A casa do Sr. Beebe ficava ao lado da igreja. Em altura, ela mal se diferenciava das outras. Havia algumas mansões também, mas estavam escondidas pelas árvores. A cena sugeria uma montanha na Suíça mais do que o sacrário e centro de um mundo de lazer, só desfigurada por duas feiosas pequenas vilas - as vilas que haviam competido com o noivado de Cecil, compradas por Sir Herry [sic] Otway na mesma tarde em que Lucy fora adquirida por ele. 

Cissie, o nome de uma delas, Albert o da outra, estavam escritos em letras góticas sombreadas nos portões do jardim e repetidos nas varandas cobertas, onde seguiam a curva semicircular do arco de entrada em grandes maiúsculas. Albert estava ocupada. Seu jardim extremamente artificial cintilava com gerânios e lobélias entre conchas polidas. As pequenas janelas recobriam-se castamente com renda Nothingham. Cissie estava para alugar. Três tabuletas de agentes de Dorking balançavam na cerca do jardim, anunciando o fato não muito surpreendente. Os caminhos entre os canteiros já estavam cobertos de mato; seu gramado, do tamanho de um lenço, amarelado, cheio de dente-de-leão.

- Este lugar está arruinado! - disseram as senhoras automaticamente - Summer Street jamais será a mesma." (Parte II, capítulo 9, "Lucy como uma obra de arte"; tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, 1988).

Note que o narrador compara a cena à Suíça. É uma analogia mais que apropriada, visto que Holmbury St. Mary é conhecida como Pequena Suíça devido à forma como suas casas imponentes estão espalhadas pelas encostas de Holmbury Hill. O apelido certamente já existia na época de Forster. Falando em Holmbury Hill, sua encosta sul costuma ser apontada como a localização de Windy Corner. 


Ao fundo da paisagem, vê-se Holmbury Hill. | Foto: Ian Capper/Geography.org.uk. 


No capítulo 2, Lucy, em diálogo com a senhorita Lavish, dá mais detalhes da propriedade: 

"[...] Fica nas colinas de Surrey. Cerca de sete quilômetros de Dorking, com vista para a região do Weald."

"Oh, vocês têm propriedades em Surrey?"

"Quase nada", protestou Lucy, temerosa de ser considerada uma esnobe. "Somente trinta acres... apenas o jardim, todo o sopé do morro e uns prados." (Parte I, capítulo 2, "Em Santa Croce sem o Baedeker"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

O lago da famosa e divertida cena do banho ao ar livre de Freddy Honeychurch, George Emerson e Sr. Beebe, no 12º capítulo, teria sido inspirado em uma lagoa situada na trilha que leva ao topo de Holmbury Hill. E. M. Forster conhecia bem a geografia e os pequenos cursos d'água dessa área vizinha a Abinger Hammer. 

"Quer realmente nadar?", Freddy perguntou-lhe. "É somente um laguinho, sabe. Creio que deve estar acostumado com coisas bem melhores."

"Lá está o lago. Queria que fosse maior", ele ajuntou, em tom de desculpa. Desceram por uma ribanceira escorregadia, forrada de folhas de pinheiro. Ali repousava o reservatório, instalado em seu pequeno monte verdejante — apenas um laguinho, mas grande o bastante para conter um corpo humano, e límpido o bastante para refletir o céu. Por causa das chuvas, as águas avançaram pela grama circundante, que formavam como que uma bela trilha esmeralda, aliciando os pés na direção do poço central. "É evidentemente razoável, no quesito lacustre", sentenciou o senhor Beebe. "Não é preciso desculpar-se pelo lago."

Tratava-se de águas ordinárias; tampouco manavam em profusão. Além do mais, conforme Freddy declarou, davam aos banhistas a impressão de que nadavam numa salada. (Parte II, 12º capítulo; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Lago em Holmbury St. Mary (imagem apenas ilustrativa). | Foto: See Around Britain.


Alguns capítulos antes, Lucy se refere ao lago como "sagrado", durante um passeio com o noivo Cecil pelo bosque entre Summer Street e Windy Corner, pouco antes do primeiro beijo do casal. Esse adjetivo seria usado algumas outras vezes no romance para se referir ao lago, praticamente nomeando-o. 

Logo chegaram a uma pequena clareira entre os pinheiros — outro pequenino alpe verdejante, solitário desta feita, exibindo um laguinho raso em seu regaço.

Ela exclamou: "O Lago Sagrado!".

"Por que o chama desse jeito?"

"Não consigo atinar a razão. Suponho que seja por causa de um livro. É apenas um tanque agora, mas pode ver o regato que o atravessa? Bem, muita água chega com as chuvas torrenciais e, como não pode seguir adiante, toda de uma vez, o açude cresce e torna-se belo. Freddy costumava nadar aqui. Ele gosta muito do local." (Parte II, capítulo 9, "Lucy como uma obra de arte"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Em dos trechos acima, é citada a igreja da paróquia de Summer Street. Na parte mais alta do vilarejo, a "igreja de pedra recém-construída, de simplicidade dispendiosa, com uma torre encantadora" teve sua representação inspirada pela igreja de St. Mary the Virgin, o templo local de Holmbury, projetado pelo arquiteto George Edmund Street (1824–1881). 

"[...] sua igreja, erigida com tanto esmero na encosta de um morro, com seu belo transepto alto e torre de pedregulhos prateados [...]" (Parte II, capítulo 19, "Mentindo para o Senhor Emerson; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

A igreja de St. Mary the Virgin, em Holmbury St. Mary. | Foto: Dr. Neil Clifton/Geography.org.uk.


Além da pitoresca Holmbury St. Mary, o pequeno vilarejo vizinho de Friday Street, na encosta norte de Leith Hill, também costuma ser citado como uma das inspirações para Summer Street. 

Aqui, falamos especificamente sobre locais, todavia, é seguro afirmar que Forster também deve ter tomado vários habitantes da região como referências para construir os personagens de seu terceiro romance publicado.

sábado, 17 de outubro de 2026

E. M. Forster & Surrey

O site do jornal The Telegraph listou as dez aldeias mais bonitas do condado de Surrey, no sudeste da Inglaterra. O ranking foi organizado pela escritora de viagens Kathryn Liston e conta com sugestões de divertimento, hospedagem e curiosidades. Dois vilarejos escolhidos por Kathryn tem ligação com a biografia e a literatura de E. M. Forster. 


9. Abinger Hammer


É impossível não notar Jack, o Ferreiro, o famoso morador da vila. Ele bate as horas com seu martelo no relógio que fica suspenso sobre a A25, rodovia que corta a vila. O relógio, doado em memória do primeiro Lorde Farrer de Abinger Hall, que faleceu em 1899, simboliza o papel que Surrey e a Abinger Hammer Mill, também chamada de Forja de Abinger, desempenharam na indústria do ferro.

No entanto, o principal atrativo aqui é o rio Tillingbourne, com suas águas calmas. Você verá crianças brincando na água com redes de pesca, tentando pegar peixinhos. Para ser sincero, não há muito além de um campo de críquete – você pode até assistir a uma partida no verão – e uma loja/casa de chá que serve sanduíches, bolos e chá em xícaras de porcelana fina.


Jack, o Ferreiro, posicionado na torre do relógio do vilarejo, bate as horas com o seu martelo. | Foto: Alamy Stock Photo.


O vínculo de E. M. Forster com o vilarejo de Abinger Hammer começou ainda na infância e duraria por toda a sua vida. Ele viveu lá com sua mãe por mais de duas décadas, de 1925 a 1946, em West Hackhurst, uma casa projetada pelo seu próprio pai, cujo arrendamento o escritor herdou após o falecimento de sua tia paterna Laura. 


1. Holmbury St. Mary


Vale muito a pena dirigir até esta charmosa vila nas belas colinas de Surrey. Ela é frequentemente apelidada de Pequena Suíça devido à forma como suas casas imponentes estão espalhadas pelas encostas de Holmbury Hill. Algumas casas de fazenda datam do século XVII.

A vila possui os atributos habituais: um parque; a imponente Igreja de St. Mary, com seus sinos, projetada pelo arquiteto vitoriano George Edmund Street; dois pubs; dois cafés; e, claro, vistas fabulosas. Você estará em boa companhia, pois caminhantes, ciclistas e praticantes de mountain bike vêm em massa para explorar as trilhas e caminhos de Holmbury, Leith e Pitch Hills.


Holmbury St. Mary também é conhecida como Pequena Suíça. | Foto: Alamy Stock Photo.


Aldeia vizinha a Abinger Hammer, Holmbury St. Mary teria inspirado Forster na criação da Summer Street, em A Room with a View. É lá que fica localizada a casa dos Honeychurches, Windy Corner, nos arredores da cidade de Tunbridge Wells (hoje Royal Tunbridge Wells). 

Apesar do The Telegraph ser a fonte original, foi através do site SurreyLive que tive conhecimento desse conteúdo. Joseph Bickle, que repercutiu o ranking no SurreyLive, faz referência a E. M. Forster quando comenta sobre Holmbury St. Mary e foi isso que me atraiu à sua matéria.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A longa jornada de uma placa


A placa sobre três dos romances mais famosos do escritor. | Foto: King's College, Cambridge.

E. M. Forster faleceu em 07 de junho de 1970. No dia seguinte, despontou um mistério que seria solucionado somente em 2026, 56 anos depois: que fim levou a placa com o nome do escritor que ficava afixada na porta dos seus aposentos no King's College, em Cambridge? Ela estava parafusada lá havia 24 anos e simplesmente sumiu. 

Bem, a explicação não é extraordinária, mas não deixa de ser interessante. No início deste ano, a placa com o nome "Mr Forster" foi devolvida à instituição por um ex-aluno, agora um septuagenário, que prefere não ser identificado. A resolução do enigma aconteceu durante um encontro de egressos da faculdade. Vejamos o relato em suas próprias palavras:

"Quando eu estava na escola secundária, um dos poucos textos em inglês que eu gostava de ler era o conto The Machine Stops, de E. M. Forster. Quando entrei para o King's College, descobri que o Sr. Forster residia lá e comprei um exemplar de sua coletânea de contos. Certa tarde, o abordei enquanto ele estava sentado no Webb's Court e pedi que autografasse o livro, o que ele fez com a maior cortesia. O livro continua sendo um tesouro para mim. 


Após meus exames finais, no início de junho de 1970, passei uma noite - ou várias - no bar da faculdade com amigos. 'Afogando as mágoas' talvez descreva bem o clima. Mencionamos que o Sr. Forster tinha acabado de falecer e, de forma um tanto irracional, surgiu um plano para preservar a placa da porta do quarto dele para a posteridade. Para ser completamente honesto, não tenho certeza se essa era a nossa maior preocupação. Como num passe de mágica, uma chave de fenda adequada apareceu e a placa da porta foi removida.


Depois da formatura, voltei para casa e levei comigo, para minha surpresa, a placa da porta do quarto do Sr. Forster. Nos 55 anos seguintes, ela ficou guardada em várias caixas etiquetadas como 'Lembranças', foi transferida de casa em casa e raramente viu a luz do dia. Finalmente, tendo a oportunidade de revisitar a faculdade, consegui encontrar e devolver a placa, orgulhoso por tê-la preservado por tanto tempo e grato por ela ter sido aceita sem questionamentos."


Ao site The Observer, a professora Nicolette Zeeman, curadora das coleções do King's College, disse que a faculdade ficou "encantada – e um tanto animada" por tê-la de volta. "É muito comovente que ele a tenha guardado por todos esses anos."

Segundo ela, Forster se sentia em casa no King’s College, que tem “uma longa tradição de tolerância à homossexualidade, que remonta ao século XIX”. Embora a homossexualidade fosse ilegal na época, outros membros do corpo docente eram abertamente gays. “Assim como foi para Alan Turing, a faculdade era um lugar onde as pessoas gays se sentiam confortáveis ​​e acolhidas – tenho certeza de que esse é um dos motivos pelos quais Forster veio para cá." 

Zeeman destacou ainda que ele não dava aulas, preferindo “estar em seus aposentos e na comunidade acadêmica” e que o escritor “tinha um quarto com vista”.


Forster, fotografado por Edward Leigh, observa a vista pela janela de sua sala no King's. | Foto: King's College Archive Centre.

Os antigos aposentos de Forster, de três cômodos, agora formam a Suíte de Pós-Graduação, que oferece um espaço de convivência e estudo para estudantes. Uma cornija, projetada por seu pai, ainda circunda uma lareira revestida de azulejos verdes, e uma estante de livros que outrora lhe pertenceu fica do lado oposto. 

Após a devolução da placa, a União de Estudantes de Pós-Graduação da KCGU votou para renomear os aposentos como "E. M. Forster Suite" e assim foi feito no aniversário de morte do escritor. Àquela altura, o plano, de acordo com Nicolette Zeeman, era exibi-la em algum lugar perto da porta, provavelmente afixada na parede. Infelizmente, não consegui encontrar uma foto recente do local. 

"Nada é completamente seguro, mas acho que é um risco que vale a pena correr”. Concordo com ela e nos resta torcer para que a placa continue lá por muitos anos. 


Em seus aposentos no King's College, Forster posa em frente à lareira, cuja moldura foi projetada por seu pai. | Foto: Alamy.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Forster, Rothenstein e £ 16.000

O esboço preliminar original de um retrato de E. M. Forster pintado por Sir William Rothenstein (1872-1945) está à venda no Artsy por £ 16.000. A peça única pertence ao acervo da galeria londrina Piano Nobile, parceira do Artsy.


Imagem: Artsy.


Em sanguínea, com realces em branco sobre papel cinza, o retrato é pequeno, medindo 19 cm × 12,5 cm. No canto inferior direito, veem-se as iniciais do artista, precedidas pela inscrição "1st sketch" (1º esboço). É possível fazer uma oferta pela peça na página do Artsy, que traz várias informações valiosas:


Este desenho é um estudo fiel e perspicaz da vida do romancista E.M. Forster. A aparência do escritor era notável por suas pálpebras pesadas, bigode ralo e olhos penetrantes, características estas que foram vividamente registradas na ilustração de Rothenstein. Fotografias da época mostram que ele mantinha a cabeça ligeiramente curvada, inclinada para a frente ou para um lado, e isso é sensivelmente registrado na representação da cabeça por Rothenstein. [...]


As cartas de Forster para Rothenstein oferecem uma visão sobre a natureza do relacionamento entre eles. Mantiveram uma relação amigável por mais de trinta anos, incentivada por amigos em comum, como o anfitrião da alta sociedade e cientista amador Sylvester Herringham, que promoveu uma reunião em que os dois, aparentemente, se conheceram em 1912. Ambos conheciam a cidade indiana de Benares, e Rothenstein pôde apresentar Forster a um faquir que lá vivia. Parece que foi Rothenstein quem sugeriu a Forster a ideia de um retrato.


Em 1922, Forster respondeu: "Gostaria muito de ser desenhado por você, e também de vê-lo novamente". Nessa ocasião, porém, surgiram complicações e as sessões foram adiadas – principalmente devido à indisponibilidade de Forster, que morava em Surrey e passava relativamente pouco tempo em Londres. Ele escreveu novamente no verão seguinte para encorajar Rothenstein: "Posso pedir que você me desenhe nesta sexta-feira? Qualquer lugar, qualquer hora. Seria um prazer enorme para mim". Provavelmente foi nessa ocasião, em julho de 1923, que este desenho de Forster foi feito. Parece que Rothenstein perguntou sobre a possibilidade de fazer outro retrato dele no ano seguinte, mas Forster respondeu: "Gostaria muito de poder posar para você novamente, já que você sugeriu, mas receio que, da forma como as coisas estão agora, isso não seja possível."


Como indica a inscrição no canto inferior direito, este desenho foi o "primeiro esboço" preliminar que precedeu um desenho de apresentação maior, de meio corpo. Essa ilustração agora está exposta no hall do King's College, em Cambridge. [...] O desenho do King's College é amplamente conhecido: foi publicado no Illustrated London News em 11 de outubro e no The Graphic em 8 de novembro de 1924, foi reproduzido como uma litografia em edição limitada e, posteriormente, usado na capa de uma seleção de cartas de Forster. Em contraste, este desenho sanguíneo da cabeça de Forster nunca foi exibido ou ilustrado e permaneceu na posse do artista até sua morte. 


[...] Escrevendo no segundo volume de suas memórias, em 1932, ele recordou o início da década de 1920 como um período especialmente prolífico em sua carreira no que diz respeito a desenhos de retratos.


"Após oito anos dedicados principalmente à pintura de paisagens, fiquei grato pelo fluxo de modelos que consentiram em ser desenhados ou pintados. Para o Winchester College, desenhei HAL Fisher e Lorde Grey; desenhos de Dean Inge e E. M. Forster foram adquiridos para o King's College, Cambridge. [...]


[...] Este desenho de E.M. Forster está de acordo com as práticas habituais de Rothenstein. Foi feito com os mesmos materiais – giz vermelho sobre papel cinza – que o estudo de Rothenstein para um retrato do artista Barnett Freedman, por exemplo. [...]


Como já mencionado, trata-se de um esboço preliminar que deu origem a um desenho maior, de meio corpo, atualmente exposto no hall do King's College, em Cambridge, e que você confere a seguir. 


O retrato de meio corpo, originado do esboço preliminar. | Imagem: Fine Art America. 


Citado no texto da página do Artsy, o livro com cartas selecionadas de Forster que utiliza o retrato acima na capa é o primeiro de dois volumes publicados pela editora Collins na primeira metade dos anos 80 e editados por Mary Lago e P. N. Furbank. Já o esboço preliminar foi utilizado na capa de uma das edições de E. M. Forster: A Life, biografia autorizada escrita por P. N. Furbank, publicada pela Abacus também nos anos 80.


Uma carta para Miss Emily

Uma carta original de E. M. Forster está à venda no site Memorabilia UK, especializado no comércio de materiais autografados por personalidades variadas. 

A pequena carta manuscrita e assinada em papel timbrado do King's College, Cambridge, mede 18 x 11 cm e seu estado de conservação é descrito como bom, com condição geral de 8,5/10. O valor cobrado é de £350,00, mas os interessados podem fazer uma oferta justa para consideração do site.

A página do item traz somente a transcrição da mensagem da correspondência, sem precisar a data e o destinatário. Analisando mais detidamente, acredito que a data seja 14 de março (March 14th), escrita ao lado do timbre do King's College, porém sem ano especificado. Já o nome da destinatária parece ser Miss Emily. Não consegui decifrar o sobrenome. 

A tradução da mensagem é a seguinte:


"Agradeço sua gentil carta. Demorei para respondê-la até que meus planos estivessem definidos. Infelizmente, eles não se concretizaram da melhor forma. Nesse fim de semana, estarei com a amiga que me ajuda com a correspondência, e não poderei ter o prazer de jantar com você. Gostaria de saber se você teria disponibilidade para trabalhar comigo no domingo (dia 20), de preferência à tarde. Ficaria muito grato se pudesse. Atenciosamente, E. M. Forster."


O Memorabilia UK é um revendedor registrado no Universal Autograph Collectors Club e membro do Collector Approved.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Memorabília inédita em Londres

Jim Buckingham ao lado de uma de suas pinturas na exposição. | Foto: Facebook Bloomsbury Festival. 


Jim Buckingham conheceu E. M. Forster quando ainda era criança. Sobrinho de Bob Buckingham, o policial com quem o escritor manteve um longo relacionamento de quatro décadas, Jim, agora um senhor de mais de 80 anos, é um dos curadores da exposição E. M. Forster’s Legacy of Connection: Unseen Memorabilia, que reúne um acervo inédito de recordações do seu "tio Morgan".  

Aberta ao público desde 01 de outubro, em Londres, a mostra concentra uma coleção de objetos pessoais, cartas e fotografias de Forster nunca antes vista. Jim também expõe suas próprias pinturas pela primeira vez, incluindo retratos do próprio Forster, que incentivou o seu dom para pintar, de Bob e outros membros da família, além de uma série de obras com o tema da ancestralidade.


E. M. Forster retratado por Jim Buckingham. | Foto: Site Bloomsbury Festival.


Além de um novo vislumbre da vida privada e do legado do escritor, a exposição também oferece novas perspectivas sobre a sua relação com a família Buckingham e a história da classe trabalhadora do distrito de Bloomsbury. A situação em que a família de Jim, composta por seis pessoas, morava em dois cômodos perto de King's Cross, foi mencionada por Forster em seu livro de ensaios Two Cheers for Democracy. 

O evento de lançamento, em 29 de  setembro, contou com palestras e uma sessão de perguntas e respostas. A professora, escritora, pesquisadora e especialista na obra de Forster, Claire Monk, abordou a recepção contemporânea da obra do escritor e a influência da história social de Bloomsbury na vida dele e da família Buckingham. Já o professor Daniel Monk, que assina o primeiro estudo sobre o testamento de Forster, explorou a forma como o documento desafiou convenções e redefiniu os conceitos de amizade e família em relação ao apoio que ofereceu aos Buckingham. 

   


Como parte do Bloomsbury Festival, que está completando 20 anos, a exposição acontece no Camden Archives and Local Studies Centre, na Holborn Library até 31 de outubro. Além de Jim, Lucy Goodison e o Bloomsbury Festival assinam a curadoria da mostra. A entrada é gratuita. Pelo que pude compreender, a mostra seguirá de forma independente até meados de dezembro, porém, não encontrei informações se permanecerá no mesmo local. 

Fiquei curiosíssimo, especialmente, em relação às fotografias inéditas de Forster. Por uma das imagens de divulgação nas redes sociais do festival, é possível ter um breve vislumbre delas, o que aguçou ainda mais a curiosidade. Achei intrigante que a divulgação do evento trate o relacionamento de Forster e Bob como "amizade", quando sabemos que foi um vínculo amoroso intenso e duradouro. 


Leituras recomendadas:

sábado, 6 de novembro de 2021

Forster retorna a Charleston

Charleston, a antiga casa e estúdio dos pintores Vanessa Bell e Duncan Grant, em East Sussex, foi visitada por E. M. Forster algumas vezes para almoços, jantares, conversas e reuniões do Memoir Club. Agora, em 2021, o escritor simbolicamente retorna à bucólica propriedade através de uma emblemática obra em exposição. 

Trata-se de um retrato pintado por seu amigo Roger Fry em 1911, arrematado por 325 mil libras num leilão da Bonhams, em Londres. No início de julho do ano passado falei sobre esse recorde aqui. O comprador, cujo nome não foi divulgado, compartilhou a obra com a Charleston Trust e o quadro ficará em exibição até 13 de março de 2022.


O retrato está exposto no local conhecido como garden room. | Foto: Twitter Charleston Trust.

A pintura a óleo de 73 x 60 cm é uma das treze obras de arte emprestadas de coleções particulares, que incluem ainda um nu de corpo inteiro assinado por Duncan Grant, um retrato de Vanessa Bell feito pelo artista em seu quarto, além de uma seleção de naturezas-mortas de Bell e Grant. 

Voltando ao retrato de Forster, o escritor o adquiriu por apenas 17 libras durante uma exposição no Alpine Club Gallery, em Londres, em 1912. Naquele mesmo ano, ele presenteou sua amiga e confidente Florence Barger com a obra e, depois disso, o quadro não foi visto pelo público por longos 50 anos. Então, poder apreciá-lo neste outono inglês em Charleston é uma oportunidade formidável.

No meu caso, não tenho como ir à exposição, mas tenho uma miniatura do retrato para chamar de minha:





Leitura recomendada:

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Inspiração para um pânico

A História de um Pânico é a última história de O Ômnibus Celeste e Outros Contos, publicado no Brasil em 2019.


Ano passado, quando li O Ômnibus Celeste e Outros Contos, não tive dúvidas ao considerar A História de um Pânico o meu conto favorito entre os seis publicados na obra traduzida por Vinícius Ritter. Esta história, que fecha a coletânea, conta uma experiência enigmática e espantosa vivida por turistas ingleses na Itália, cujo propósito era apenas fazer um simples piquenique num bosque.

O grupo de personagens e o cenário, inevitavelmente, me remeteram a A Room with a View, porém o conto foi concebido anos antes do romance. Foi em 1902, durante a primeira viagem do escritor com sua mãe à Itália. Em 24 de maio, eles chegaram a Ravello, uma antiga cidade medieval na costa Amalfitana, onde se hospedaram no Villa Palumbo. 

No dia seguinte, durante passeio em um vale chamado Vallone Fontana Caroso, E. M. Forster teve uma espécie de epifania literária, uma revelação.


Vista panorâmica de Ravello e da costa de Amalfi. Xilogravura de Le cento citta d'Italia, suplemento mensal ilustrado de Il Secolo, Milão, 1891. | Imagem: DeAgostini/Getty Images.
 
"Acho que foi em maio de 1902 que dei um passeio perto de Ravello. Sentei-me em um vale, alguns quilômetros acima da cidade, e de repente o primeiro capítulo da história veio à minha mente como se tivesse esperado por mim ali. Recebi-o como entidade e escrevi assim que voltei ao hotel. Mas parecia inacabado e alguns dias depois acrescentei um pouco mais até ficar três vezes mais longo." (Trecho da Introdução de Collected Short Stories, 1947).

Aquela inspiração inesperada resultou em um dos seus melhores contos, The Story of a Panic, que seria publicado mais de dois anos depois, em agosto de 1904, na revista Independent Review. Logo no início do segundo parágrafo da narrativa, o escritor define Ravello como um "agradável lugar com um pequeno e agradável hotel", muito provavelmente uma referência ao Villa Palumbo, onde se hospedou com sua mãe. Os personagens apresentados claramente são inspirados nas figuras que conheceu durante sua viagem. 

Em E. M. Forster: A Life, P. N. Furbank conta como a criação daquela história representou, de certa forma, um divisor de águas na escrita de Forster.

"Apesar de sua crueza, continua sendo uma de suas histórias mais memoráveis, expressando sua sensação de estar finalmente sob o sol e possuir sua própria alma. É, de certa forma, uma história sobre o ato da criação. Eustace, liberado por Pan, é capaz, como algum demiurgo, de recriar as estrelas, o sol e a lua com sua própria consciência; pode-se pensar que isso simboliza a compreensão de Forster de que, como artista, ele podia depender de seus próprios recursos e não precisava laboriosamente 'inventar o realismo'. A história também o mostra refletindo sobre sua própria criação. Depois de seu encontro com Pan, Eustace se comporta 'como um menino de verdade' pela primeira vez, e esta é a maneira de Forster dizer: 'Deixe-me desenvolver à minha maneira e serei tão saudável quanto você quiser.'

Ele tinha, de fato, recebido uma revelação. Algo havia mudado em sua alma, e as energias que ele tinha apenas vislumbrado em si mesmo estavam agora em sua posse. Apesar de toda a mansidão de sua existência exterior, ele foi capaz, imaginativamente, de responder à 'grandeza' da vida. Quando seus amigos leram seus primeiros livros, o que os surpreendeu foi o vigor e grandeza. Eles esperavam que um livro dele fosse como eles imaginavam o próprio Forster: charmoso, solteirão, um pouco ineficaz; e até agora ele não tivera razão para pensar que estavam errados. Claro que ele sabia que tinha dons: um bom humor fantasioso, um olho para o comportamento humano e também a capacidade de generalizar a partir da experiência. Mas não estava claro que fossem importantes. Até agora ele não se sentiu 'importante'. Agora ele o fez, tendo confiado na imaginação. A Itália, que ele demorou a amar, finalmente fez uma grande coisa por ele. Dissera-lhe que era possível viver na imaginação; e ele sabia agora com certeza que era um escritor."


Uma informação curiosa é que The Story of a Panic quase deu título à primeira coletânea do escritor. Em 23 de maio de 1909, Forster enviou uma coleção de nove histórias intitulada The Story of a Panic and Other Stories para a Edward Arnold. Embora tenha demonstrado interesse, a editora recusou-a em meados de abril. Aquela obra, posteriormente, teria o título alterado para The Celestial Omnibus and Other Stories e o número de contos seria reduzido para seis. Sua publicação ocorreu dois anos depois, em 11 de maio de 1911, pela Sidgwick & Jackson.


Vista do Mar Mediterrâneo a partir da Villa Rufolo, em Ravello, 2013. | Foto: Wolfgang Kaehler/LightRocket via Getty Images.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Little Forster Fauntleroy

Em novembro de 1885, a escritora britânica Frances Hodgson Burnett começou a publicar de forma serializada na revista infantil americana St. Nicholas Magazine aquele que se tornaria um de seus trabalhos mais conhecidos: Little Lord Fauntleroy (O Pequeno Lorde, no Brasil). A obra tornou-se tão popular que influenciou a moda infantil, com as mães vestindo seus filhos como o protagonista Cedric Errol. 


Ilustração de Reginald Birch para a 1ª edição do livro (1886) e Forster, aos 5 ou 6 anos, e sua mãe, em foto de W. J. Hawker.

"O que o conde viu foi uma figura graciosa de criança vestida em um terno de veludo preto, com gola de renda e cachos que balançavam emoldurando um rostinho bonito de menino, cujos olhos encontraram os dele com uma expressão de inocente camaradagem." (tradução de Tatiana Belinky, editora 34, 2002).

Tal descrição das vestimentas e aparência do personagem, somadas às primorosas ilustrações de Reginald Birch, fizeram incontáveis garotos serem transformados em pequenos lordes Fauntleroy. O traje e cabelo característicos foram extremamente populares nos Estados Unidos, mas também tiveram repercussões na Europa. E o pequeno Edward Morgan Forster não passou incólume por essa coqueluche. 

A iniciativa de vesti-lo como o personagem não partiu de sua mãe, Lily, mas sim de sua tia-avó paterna Marianne Thornton - Monie para os familiares. Extremamente apegada à criança, a qual chamava O Importante (Important One), Marianne era uma obstinada entusiasta do estilo Fauntleroy. O biógrafo P. N. Furbank nos conta um pouco sobre isso em E. M. Forster:  A Life (1977/1978).


Abraços de mãe e filho: a sra. Errol e Cedric, ilustrados por Graham Rust, e Forster e Lily, do mesmo ensaio de W. J. Hawker.

"Ele era uma criança bonita, com três ou quatro anos, olhos grandes e expressivos. Por insistência de Monie, ele usava o cabelo em cachos até os ombros e vestia ternos do Pequeno Lorde Fauntleroy com golas de renda; o próprio Forster disse que ele foi um dos últimos filhos a ser atormentado dessa maneira."

O comentário de Forster demonstra que ele não apreciava o famigerado visual e talvez isso se deva às zombarias dos primos:

"Ele às vezes se deparava com primos do sexo masculino no 'East Side' [casa de Marianne Thornton, também conhecida como Battersea Rise e The Cockpond], e então seus cachos e seu status de favorito como 'O Importante' o colocavam em apuros."


O pintor George Richmond, que já havia retratado Marianne, fez o mesmo com o jovem Forster. E é claro que a tia Monie insistiu que o retrato deveria se parecer o máximo possível com Little Lord Fauntleroy. 


E. M. Forster, por George Richmond.


Especula-se que o estilo Fauntleroy encorajou muitas mães a vestirem os filhos com calções ou calças mais cedo do que a tradição (Breeching) determinava. Muito provavelmente a moda criada pelo personagem teve papel importante no declínio do uso de vestidos e saias por meninos. Detalhe interessante é que os trajes que Burnett popularizou foram baseadas nas roupas que ela mesma costurou para seus dois filhos, Vivian e Lionel. 

Em tempo: Já tive a oportunidade de ler três livros de Frances Hodgson Burnett: o próprio O Pequeno Lorde, O Jardim Secreto (The Secret Garden) e A Princesinha (A Little Princess) e recomendo todos.