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domingo, 17 de outubro de 2021

Bom domingo e boas leituras

Vista da cidade de San Gimignano, na Itália. | Foto: Bettmann/Getty Images.

Em 25 de junho de 1902, E. M. Forster e sua mãe, Lily, visitaram San Gimignano, pequena cidade italiana na província de Siena, na Toscana. Com suas imponentes torres de pedra e arquitetura medieval românica e gótica, a cidade inspirou a Monteriano de Where Angels Fear to Tread (1905), o primeiro romance publicado do escritor. Em carta ao professor Edward Joseph Dent, Forster a descreveu como "particularmente charmosa"

A visita à Cidade das Belas Torres, como também é conhecida, não durou muito. No dia seguinte, ambos já estavam em excursão à cidade etrusca de Volterra e em seguida para Pisa. 

A adaptação Where Angels Fear to Tread (1991) teve o cuidado de utilizar como locação a cidade real que inspirou o escritor e o resultado não poderia ser melhor.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Qual sua Howards End favorita?

Até hoje, o romance Howards End recebeu três adaptações para as telas, sendo duas para TV e uma para o cinema. Infelizmente, a primeira, de 1970, continua inacessível, com exceção de um trecho em vídeo de pouco mais de um minuto e algumas fotografias. Tenho bastante curiosidade em ver como era a Howards End - e aqui me refiro à casa propriamente dita - desta adaptação da BBC exibida pela primeira vez há mais de 50 anos, mas fico apenas na vontade. Desta forma, temos apenas as Howards End de 1992 e 2017 para comparar. Gosto de ambas, mas posso afirmar que tenho uma favorita. 

Peppard Cottage, a Howards End da adaptação de 1992. | Imagem: Captura de tela.

A locação da adaptação de 1992, dirigida por James Ivory, foi Peppard Cottage, na vila de Rotherfield Peppard, condado de Oxfordshire. A casa rural do século XIV se encaixou de forma impecável à história e ficou tão marcada como a mítica propriedade que, muito provavelmente, é a primeira coisa que passa pela cabeça dos apreciadores de Howards End quando pensam no romance ou no filme. De tijolos vermelhos, assim como descrito por Helen Schlegel no início da obra, o chalé é pequeno e encantador, com hera e flores cobrindo o alpendre e a fachada. Sem falar nos arredores, com sua luxuriante área relvada por onde Ruth Wilcox caminha já na primeira cena do longa.


Vann, a Howards End da minissérie de 2017.  | Imagem: Captura de tela.

Já a minissérie da BBC de 2017, dirigida por Hettie Macdonald, apresenta como sua Howards End uma casa que remonta ao século XVI, chamada simplesmente Vann e situada na vila de Hambledon, perto da cidade de Goldalming, condado de Surrey. De imediato já se percebe que a casa não é pequena, o que não corresponde à uma característica marcante descrita logo no início do livro e repetida outras vezes posteriormente: "Mal conseguimos nos espremer aqui dentro...", diz Helen na primeira carta enviada a Margaret. Típica casa rural inglesa, não tem como não julgá-la como bela e notável, porém, quando comparada a Peppard Cottage fica evidente que é menos "fotogênica" e pitoresca. As fotografias no site oficial de Vann deixam a impressão de que os arredores são talvez até mais ricos que os de Peppard, mas não chegam a compensar a casa em si, que é a parte mais importante nesse contexto.

Nem preciso dizer qual a minha favorita. Recentemente, após concluir uma releitura do romance, assisti ao filme de 1992 mais uma vez e a única coisa que me incomodou foi perceber que é possível avistar outras propriedades nas cercanias do chalé. A visão imaginada por mim sempre foi de que Howards End era mais retirada, próxima somente da fazenda onde moram os Avery. Porém, como tal "isolamento" não é explicitado no livro e na verdade é fruto da minha mente, não posso me queixar desse pormenor. 


Peppard Cottage, no condado de Oxfordshire. | Imagem: Captura de tela.

Uma curiosidade que me faz gostar ainda mais desta locação é a possibilidade de E. M. Forster tê-la visitado. Peppard Cottage pertenceu a Lady Ottoline Morrell (1873-1938), patrona das artes e conhecida do escritor, que inclusive o fotografou várias vezes no início dos anos 1920 (veja em O Álbum de E. M. Forster - Pelo olhar de Lady Ottoline Morrell). Forster era visitante regular de Garsington Manor, a residência de Lady Ottoline Morrell em Oxfordshire e é bastante provável que também tenha estado no chalé que muitos anos depois daria vida à sua Howards End nas telas do cinema. 

domingo, 30 de maio de 2021

Boa semana e boas leituras

A Praça e a Basílica de São Pedro. | Foto: Luigi Villari (Livro Italian Life in town and Country).


Tendo partido com sua mãe para a Itália em outubro de 1901, E. M. Forster passou por cidades como Milão e Florença antes de chegar à Roma quase no final daquele ano. Na capital italiana, dois imprevistos aconteceram num curto intervalo de tempo: por volta de 24 de janeiro de 1902, ele torceu o tornozelo na Pensione Hayden, perto da Fontana di Trevi, onde estava hospedado e, em 02 de fevereiro, quebrou o braço direito ao cair nos degraus da Basílica de São Pedro. A recuperação estendeu-se ao longo do mês e ele teve que usar a mão esquerda para conseguir escrever um pouco. 

Tais incidentes, somados às ansiedades de sua mãe e ao temor de deixá-la sem seu amparo, puseram fim aos planos de uma viagem para a Grécia e Turquia. Após a exaustiva passagem por Roma, "incluindo o rei, o Papa e o Coliseu ao luar" (carta para E. J. Dent, de 20 de março), mãe e filho partiram para Nápoles em meados de março.


Fonte: An E. M. Forster Chronology (1993), de J. H. Stape.

domingo, 9 de maio de 2021

Boa semana e boas leituras


Em 03 de outubro de 1901, E. M. Forster e sua mãe partiram da cidade de Dover, na Inglaterra, para uma temporada de um ano na Itália. No dia 11 daquele mesmo mês, eles chegaram a Cadenabbia, uma pequena comunidade na Lombardia, província de Como. 

O Hotel Belle Ile, à margem do Lago Como, foi sua primeira parada. O plano inicial era se hospedar por apenas uma noite, mas a estada acabou se prolongando por dez dias. Será que a magnífica vista foi o motivo da mudança de planos? Na cartão-postal acima, um registro do hotel em 1910. 


Imagem: Ebay

domingo, 2 de maio de 2021

Boa semana e boas leituras


Acton House, na vila de Felton, condado de Northumberland, Inglaterra. Foi a casa de William Howley Forster (1855-1910), o tio Willie, irmão mais novo do pai de E. M. Forster. Morgan fez várias visitas à casa do tio entre o final da década de 1890 e o ano de 1905, principalmente durante os verões. 

A bela Acton House foi o modelo para Cadover, a casa da Sra. Emily Failing, tia paterna do protagonista Rickie Elliot em The Longest Journey. Descrita com detalhes no início do capítulo 11, a propriedade fictícia está situada no condado de Wiltshire. Já o próprio tio Willie foi a inspiração para a Sra. Failing, nas palavras de Forster em entrevista à revista The Paris Review, publicada em 1953. 

Felizmente, muitas das características originais de Acton House ainda estão intactas, como portas, abóbadas, lareiras e janelas guilhotina.

Imagem: Stephen Richards via Geography.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Forster & Long Crichel House

No final de fevereiro, a editora Constable publicou o livro The Crichel Boys: Scenes from England's Last Literary Salon, do escritor e arquivista Simon Fenwick. A obra se concentra em contar a fascinante trajetória de Long Crichel House, a antiga casa paroquial que abrigou o último salão literário inglês do pós-guerra, situada na pequena vila de Long Crichel, condado de Dorset. 

E. M. Forster foi um dos convidados deste lugar que respirava literatura, arte, música e amor livre. Boa parte de seu círculo de amigos também passou por lá, como Vanessa Bell, Benjamin Britten e Duncan Grant.

"Em 1945, Eddy Sackville-West, Desmond Shawe-Taylor e Eardley Knollys - escritores do New Statesman e administrador do National Trust - compraram a Long Crichel House, uma antiga casa paroquial sem eletricidade e com abastecimento de água irregular. Nesse lugar improvável, teve início o último salão literário inglês.

Mais calmo e menos formal do que os famosos salões literários de Londres, Long Crichel tornou-se um experimento idiossincrático na vida comunal. Sackville-West, Shawe-Taylor e Knollys - mais tarde acompanhados pelo crítico literário Raymond Mortimer - tornaram-se membros substitutos das famílias uns dos outros e sua companhia tornou-se um estímulo para escrever, para eles e seus convidados. 

O livro de visitantes de Long Crichel revela um Quem é Quem das artes na Grã-Bretanha do pós-guerra - Nancy Mitford, Benjamin Britten, Laurie Lee, Cyril Connolly, Somerset Maugham, E. M. Forster, Cecil Beaton, Vita Sackville-West e Harold Nicolson - que foram atraídos pela boa comida, quantidades generosas de bebida e excelente conversa. Para Frances Partridge e James Lees-Milne, dois dos melhores diaristas do século XX, Long Crichel tornou-se uma segunda casa e suas vidas ficaram ligadas à ela.

No entanto, deveria haver mais na história da casa do que aquilo que os críticos chamam de um grupo de "cavalheiros-estetas hifenizados" e uma "fábrica de prosa". 

Nos anos posteriores, a casa e seus habitantes enfrentariam os tremores secundários do Caso Crichel Down, o Relatório Wolfenden e a crise da AIDS. A história de Long Crichel também faz parte do desenvolvimento do National Trust e de outros movimentos conservacionistas.

Através das lentes de Long Crichel, o arquivista e escritor Simon Fenwick conta uma história mais ampla da grande revolução que ocorreu na segunda metade do século XX. Íntimo e revelador, ele dá vida aos anos dourados e mexeriqueiros de Long Crichel e, ao fazê-lo, revela um elo que faltava na história literária e cultural inglesa."




Na fotografia acima, temos o registro de uma visita de E. M. Forster a Long Crichel House, em março de 1960, início da primavera. Na ocasião, ele conheceu o moldureiro e colecionador de arte búlgaro Mattei Radev (1927-2009) - sentado ao seu lado na foto - com quem, posteriormente, teve um envolvimento amoroso. A fotografia foi tirada por Eardley Knollys (1902–1991), crítico de arte e um dos proprietários de Long Crichel House.


A antiga Long Crichel House hoje dá lugar à The Long Crichel Bakery, famosa pelo Hedgehog Bread (Pão Ouriço).



Leituras recomendadas:

sábado, 20 de março de 2021

Marabar em Washington, D.C.

Uma obra de arte batizada em tributo às Cavernas de Marabar, de A Passage to India, esteve nos últimos anos no centro de uma controvérsia na capital dos Estados Unidos, Washington, D.C. Criada pela escultora Elyn Zimmerman em 1984, Marabar é composta por um longo e estreito espelho d'água flanqueado por cinco enormes pedras de granito e está instalada numa praça modernista projetada pelo arquiteto David Childs, na entrada principal da sede da National Geographic Society (NGS).



A contenda começou no verão de 2019, quando a NGS anunciou seus planos para uma grande reestruturação da praça. Diante do projeto apresentado, foi inevitável fazer uma pergunta: onde está Marabar? A instalação de Zimmerman não fazia parte da nova proposta e, aparentemente, seria demolida.   

A The Cultural Landscape Foundation (TCLF) logo se articulou para alertar sobre a destruição deliberada da obra, mas com o aval do Historic Preservation Review Board (HPRB) o projeto seguiu adiante. A reação pública foi vigorosa e imediata, com o HPRB solicitando uma reavaliação do impasse. 

Recentemente, durante uma reunião do conselho, ficou acordado que Marabar, felizmente, será salva. A obra será reinstalada num outro local ainda a ser definido, com os custos de remoção segura e realocação pagos pela NGS.




A resolução garante que tanto a TCLF quanto Elyn Zimmerman terão papéis ativos no processo de seleção do novo local, supervisão da remoção, transporte e reinstalação. A etapa atual é procurar uma universidade, um jardim de esculturas ou outra instituição cultural que gostaria de abrigar Marabar.

A escultura seminal ao ar livre foi o primeiro trabalho em pedra de grande escala de Zimmerman. Na página da obra no site oficial da artista, encontramos uma breve explicação sobre a escolha do título:

"O título foi escolhido após a conclusão da peça. As superfícies de granito infinitamente refletivas, frente a frente, lembravam a artista da caverna imaginária cujas paredes interiores de rocha viva foram misteriosamente polidas, no romance de E. M. Forster, A Passage to India."




Leituras recomendadas:

sexta-feira, 12 de março de 2021

Obituário - Margaret Ashby

A historiadora e co-fundadora da associação Friends of Forster Country, Margaret Ashby, faleceu na última segunda-feira, 08 de março de 2021, aos 80 anos. Habitante de Stevenage, no Hertfordshire, desde que era um bebê, Margaret lançou vários livros sobre a história local, incluindo Forster Country (1991). 

Em 1989, juntamente com o geólogo aposentado, John Hepworth, fundou a associação The Friends of Forster Country,  cujo propósito é preservar a área verde ao norte da cidade de Stevenage. É lá que está situada Rooksnest, a casa da infância de E. M. Forster.

Após a morte de Epworth, tornou-se patrona da associação e continuou atuando nos assuntos mais relevantes. Em seu site oficial, a entidade lamentou que Margaret tenha partido num momento em que o Forster Country está mais ameaçado do que nunca pelo avanço imobiliário. 

The Comet: Tributes pour in for campaigner and historian Margaret Ashby.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Bom domingo e boas leituras


Em 1898, seu segundo ano no King's College, Cambridge, E. M. Forster morou no Edifício Bodley. Ele ocupava os aposentos W7, situados no canto superior esquerdo da segunda escada da direita. A bela vista dava para The Backs (os fundos das faculdades) e o rio Cam. Na fotografia acima, o edifício está muito semelhante àquele em que Forster viveu durante sua graduação.

Nessa época, ele participava do Cambridge University Musical Club e da Classical Society, integrando-se mais ativamente à vida universitária.
 

Imagem: King's College, Cambridge.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Placas de E. M. Forster V

A nossa série de posts sobre as placas que relembram e homenageiam E. M. Forster termina hoje com uma localizada na casa onde o escritor faleceu em 07 de junho de 1970. Após sofrer uma série de pequenos derrames desde 1964, que comprometeram sua fala e memória, Forster foi acometido por um acidente vascular cerebral mais severo em 22 de maio de 1970. Cinco dias depois, em 27 de maio, seu amante Bob Buckingham e sua esposa, May, transferiram o escritor para sua casa em 11 Salisbury Avenue, na cidade de Coventry, condado de West Midlands. O casal o levou para lá a pedido de Forster, que pressentia sua morte iminente. 

Foto: Queer Places, Vol. 2.2, de Elisa Rolle, Blurb, 2019.

"Em 27 de maio de 1970, fomos a Cambridge para buscá-lo pela última vez. Ele não tinha conseguido se levantar da mesa no Hall e foi conduzido para seus aposentos. Com ajuda, ele foi capaz de se levantar e fazer cerâmica em seu quarto, mas um ou dois dias depois, desmaiou e rastejou para a porta para obter ajuda. Ele nunca mais caminhou, mas sua mente estava perfeitamente clara e ele estava alegre. O jovem artista residente  Mark Lancaster ajudou Robert a carregá-lo pela escada 'A' até o carro e conseguimos carregá-lo para a cama em  Coventry, rindo e brincando. Normalmente, quando doente, ele tinha uma cama no andar de baixo, mas ele pediu para ser levado para o quarto.

No dia 30, nossos queridos amigos Audrey e Eric Fletcher chegaram inesperadamente e ficaram para jantar. Se tornou uma festa alegre e nós levamos nosso café para seu quarto. 

Essa foi a última vez que ele se alimentou. Na manhã seguinte, estava mais fraco e isso progrediu a cada dia.

No domingo, 07 de junho, ele morreu às 2h40. Suas cinzas estão misturadas com as de Robert em um canteiro de rosas no crematório com vista para a Warwick University. 

Assim terminou uma longa vida que tanto enriqueceu a minha." (Some Reminiscences, por May Buckingham, em E. M. Forster: A Human Exploration - Centenary Essays, editado por G. K. Das e John Beer, 1979).


O casal Buckingham morava em Coventry desde 1952, após se mudarem do distrito de Shepherd's Bush. Em Some Reminiscences, May Buckingam também relembra as visitas de Forster e as insatisfações do escritor com o lugar:
 

Por causa do trabalho de Robert, tivemos que nos mudar para Coventry em 1952, o que perturbou muito a mim e Morgan. Ele nunca gostou do cidade, mas eu sim. Não era tão conveniente para ele chegar. A viagem de trem crosscountry de Cambridge é desconfortável e difícil. Ainda não existe uma sala de concertos e àquela altura o único teatro nunca apresentava peças.

Ele nos visitava com frequência e com o passar do tempo teve que ficar períodos bastante longos quando algumas alterações estruturais estavam sendo feitas no King's e seus aposentos corriam o risco de desabar.

[...] Quando em Coventry, ele insistia em que saíssemos para uma caminhada todos os dias, tal como tinha sido seu hábito durante toda a vida. Apenas o frio o impedia, mas como não podíamos ir muito longe, isso significava passar todos os dias pelas mesmas ruas suburbanas monótonas. (Some Reminiscences, por May Buckingham, em E. M. Forster: A Human Exploration - Centenary Essays, editado por G. K. Das e John Beer, 1979).



A placa em memória a Forster foi inaugurada em 06 de julho de 1981, tendo sido encomendada pela ocupante da casa na época, a Sra. Jenny Mecziems, para comemorar os 100 anos de nascimento do escritor. Houve uma breve cerimônia durante a qual May Buckingham fez o descerramento. Ela está afixada na parede acima da porta da garagem do imóvel. Infelizmente, não obtive uma foto mais próxima da placa, que contém o seguinte texto:

E. M. FORSTER / ROMANCISTA / 1879-1970

Esteve aqui algumas vezes na casa de seus amigos Robert e May Buckingham, e morreu aqui em 07 de junho de 1970. Erigida para marcar o 100º aniversário de seu nascimento. 

 


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Placas de E. M. Forster IV

Em janeiro de 1925, antes de se deslocar no condado de Surrey, mudando-se de Harnham, em Weybridge, para West Hackhurst, na vila de Abbinger Hammer, E. M. Forster alugou um apartamento em Londres, no 27 Brunswick Square, distrito de Bloomsbury. Convenientemente perto de vários amigos do Bloomsbury Group, esse pied-à-terre permaneceu como sua base na capital durante cinco anos. 

No final de janeiro de 1930, ele se mudou para o número 26 também de Brunswick Square, onde permaneceu até 1939. Em meados de outubro deste ano, pouco tempo depois do início da Segunda Guerra Mundial, o escritor se transferiu para um apartamento em 9 Arlington Park Mansions, em Chiswick, Londres, que usaria com frequência até sua morte em 1970. E finalmente chegamos ao local onde encontramos a placa do post de hoje de nossa série.


E. M. FORSTER
1879-1970
Romancista viveu aqui

A placa foi erigida em 1983 pelo Greater London Council. Fabricada em aço esmaltado, tem apenas 30,5 cm de diâmetro e foi especialmente encomendada para caber no espaço estreito na entrada do edifício. É a única em homenagem a E. M. Forster administrada pela instituição English Heritage, a mais tradicional do ramo no Reino Unido. 

O economista John Ernest Vaizey (1929-1984), o Barão Vaizey, foi o grande incentivador da colocação da placa. Residente de Chiswick, ele chegou a conhecer E. M. Forster e posteriormente descobriu através da biografia escrita por P. N. Furbank, E. M. Forster: A Life (1977), que o escritor havia morado lá. O barão então se dedicou a viabilizar esse registro oficial junto ao Greater London Council e à English Heritage, o que aconteceu um ano antes de sua morte. 

A historiadora de arte, Marina Vaizey, viúva do barão, vive em Chiswick há muitos anos e também conheceu Forster. Ao site Chiswick Book Festival, Marina contou algumas curiosidades: 

"Íamos dar uma festa para comemorar [a inaguração da placa], porém nunca chegamos a fazer isso... mas fazer a lista de convidados foi divertido, embora nunca tenhamos feito a festa! Deve ter sido há mais de 40 anos, quando a grande biografia foi publicada, e estávamos morando em Heathfield Terrace.

Tomei chá com Forster no King's em 1955 ou 1959! Lembro-me dos quartos um tanto desolados, mas com uma vista soberba dos Backs para o [rio] Cam. Ele era discretamente cortês e meticuloso, embora devesse estar farto de ver pessoas aparecendo para prestar uma espécie de homenagem. Forster morreu em 1970. Eu sei que ele parecia imensamente velho! E claro que agora sou uma octogenária…"


página dedicada à placa no site da English Heritage informa que Forster se mudou para Arlington Park Mansions em parte para escapar do centro de Londres após a eclosão da Segunda Guerra Mundial e em parte para ficar mais perto de seu amante Bob Buckingham, que vivia no distrito de Shepherd's Bush com sua esposa, May. O bloco foi construído em 1905 e do seu apartamento, no último andar, Forster podia apreciar uma bela vista de Turnham Green, um parque público situado logo à frente. 

Ainda segundo o site, mesmo depois de eleito Fellow do King's College, em Cambridge, Forster continuou passando um ou dois dias por semana em Londres, invariavelmente viajando de ônibus e trem com sua pequena bolsa Gladstone, pois considerava os táxis uma "extravagância vulgar". Ele manteve o apartamento em Arlington Park Mansions como um pied-à-terre até sua morte. 


Veja também: Placas de E. M. Forster I ;
                            Placas de E. M. Forster II;

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Placas de E. M. Forster III

O local onde está afixada a placa do post de hoje está ligado ao meu romance favorito de E. M. Forster: Maurice. Em setembro de 1913, o autor esteve em Harrogate, uma cidade termal no condado de North Yorkshire, onde se hospedou em Beech Villa, um hotel construído em 1850. Forster estava na cidade acompanhando sua mãe, Lily, que, acometida de gota e reumatismo, se beneficiava das reputadas propriedades medicinais das águas termais. O tratamento nos banhos turcos durou cerca de um mês. Eles já haviam estado lá em julho de 1910, de acordo com o livro An E. M. Forster Chronology, de J. H. Stape. 


Com sua mãe em segurança no spa, o escritor decidiu fazer uma peregrinação secreta de cerca de uma hora ao sul para visitar o poeta e filósofo Edward Carpenter e seu companheiro George Merril, na aldeia de Milthorpe, condado de Derbyshire. Na nota final de Maurice, o escritor faz referência direta à esta visita e ao retorno para Harrogate:

"Deve ter sido em minha segunda ou terceira visita ao templo que a fagulha se acendeu, e ele e seu companheiro George Merrill causaram uma profunda impressão em mim e tocaram na fonte da criatividade. George Merrill também me tocou as costas — gentilmente e pouco acima das nádegas. Creio que era o que fazia com a maioria das pessoas. A sensação era incomum, e ainda lembro-me dela, como a de um dente há muito desaparecido. Era um toque tão psicológico quanto físico. Parecia passar diretamente da parte mais estreita de minhas costas até minhas ideias, sem implicar meus pensamentos. Se isso for verdade, teria agido em perfeita consonância com o misticismo iogue de Carpenter, provando que, naquele momento preciso, eu havia concebido. Em seguida, voltei a Harrogate, onde minha mãe convalescia, e imediatamente comecei a redigir Maurice." (Nota final de Maurice, tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).


Na coluna localizada na esquina da Victoria Road com a Esplanade, uma placa cita a estada de E. M. Forster em Beech Villa. O registro foi providenciado pelo Harrogate Borough Council em 2004. 


Foto: Open Plaques


"Beech Villa e sua vizinha, Beech Lodge, foram construídas em 1850 como um modelo de desenvolvimento para o Ducado de Lancaster e serviu por muitos anos como um hotel privado. Em 1913, E. M. Forster, autor de "Howards End", "A Passage to India", etc, esteve aqui a escrever seu controverso romance "Maurice". Os edifícios não são abertos ao público - 2004."


Beech Villa integra uma propriedade maior chamada The Esplanade, que inclui ainda Beech Lodge e Sloane Cottage. Em 2014, quando pertencia ao empresário William Adderley, todo o conjunto foi colocado à venda pelo valor de £3,795,000, conforme informei no blog. Não conseguir confirmar que a propriedade foi efetivamente vendida, mas como as páginas de ofertas nos sites imobiliários não estão mais disponíveis, creio que algum interessado fechou o contrato. 
                            Placas de E. M. Forster II.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Placas de E. M. Forster II

Durante um breve período de 1904, E. M. Forster e sua mãe, Lily, residiram num apartamento em Drayton Court, no distrito de South Kensington, em Londres. Eles chegaram ao local em março, mas em 08 de agosto deixaram o apartamento com planos de se estabelecerem numa casa na cidade de Weybridge, condado de Surrey, no mês seguinte. 

Em meados de setembro, como planejado, mãe e filho estavam acomodados no número 19 da Monument Green, uma habitação suburbana que eles batizaram de Harnham (hoje, Revard). A propriedade foi alugada por £ 55 ao ano e eventualmente comprada por £ 1.075. 

Naquela casa de três andares com janelas baixas, E. M. Forster escreveu todos os seus seis romances ao longo de 20 anos. Obviamente, ele não concebeu a totalidade de cada obra em Harnham, mas é sabido que todas, em algum momento, foram escritas naquele ambiente, especialmente num estúdio com vista para a rua Monument Green. É nesta casa que está a placa do nosso post de hoje. 


Foto: Jitensha Oni (2017), via Open Plaques.

E. M. FORSTER
VIVEU E ESCREVEU AQUI
1904-1925

 

Imagem: Google Street View (julho de 2018).


A placa já teve a cor azul. Foto: Flickr Peter Hills




Apesar de ter sido sua residência fixa por duas décadas, Forster nunca gostou realmente da casa. Algumas de suas descrições, no entanto, são favoráveis:

"Era muito bonita em alguns aspectos, olhando para trás, por cima de um bosque e um campo cheio de galinhas hidrópicas". Ele complementa: "[Havia] uma bela soleira forrada de latão... nenhum de nossos vizinhos tinha uma."


Em Weybridge, Forster fez amizade com o poeta, escritor e soldado Siegfried Sassoon, que o visitava em Harnham. Em seus Siegfried Sassoon Diaries, o poeta descreve a casa como "espaçosa, confortável e com decoração vitoriana"

A despeito das insatisfações de Forster, morar em Harnham facilitou seu acesso a Londres - enquanto protegia sua mãe da agitação metropolitana - e lhe forneceu um círculo de vizinhos e amigos. Eles permaneceram ali até janeiro de 1925, quando se mudaram para West Hackhurst, na vila de Abbinger Hammer, também no condado de Surrey. A propriedade fora deixada em arrendamento para Forster por sua tia paterna Laura, recém falecida.


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Placas de E. M. Forster

Criadas para marcar locais públicos e privados onde viveram ou passaram personalidades históricas, as famosas placas do Reino Unido já existem desde 1867, quando Lord Byron foi o primeiro homenageado em Londres, sua cidade natal. 

As placas mais tradicionais são as azuis, administradas desde 1986 pela instituição English Heritage, porém, sua popularidade provocou o surgimento de uma série de outros esquemas de placas. Esses marcadores históricos tem levado o nome de várias e várias personalidades ilustres, entre elas, E. M. Forster. 

O escritor tem ao menos cinco placas em sua homenagem e hoje começo uma pequena série de posts sobre esses registros simples, mas ao mesmo tempo significativos. A ordem dos posts vai seguir a cronologia da passagem de Forster por cada um dos locais. 



A primeira placa destacada está localizada em Royal Tunbridge Wells, cidade ao oeste do condado de Kent e denominada apenas Tunbridge Wells até 1909. E. M. Forster e sua mãe, Lily, se mudaram para lá no final de setembro de 1898, quando partiram de uma cidade de nome semelhante: Tonbridge, situada quatro milhas ao norte. 

Em Tunbridge Wells, mãe e filho ocuparam a casa de número 10 na Earls Road. É lá que está afixada a seguinte placa:


E. M. FORSTER   
1879-1970
Romancista e autor de A Room with a View, Howards End, A Passage to India, 
Where Angels Fear to Tread viveu aqui.  
1898-1901.

A placa está afixada no vestíbulo da casa. Imagem: Google Street View (junho de 2019).


A 10 Earls Road vista de frente. Imagem: Google Street View (junho de 2019).


Forster e sua mãe viveram pouco tempo no local e as informações sobre esse curto período são escassas. Considerando a sequência de fatos apresentados no livro An E. M. Forster Chronology, de J. H. Stape, conclui-se que Forster e sua mãe não retornaram à casa da Earls Road após uma longa viagem para a Itália, Áustria e Alemanha, que se estendeu de outubro de 1901 a setembro de 1902. Por conta disso, a placa indica que eles permaneceram no imóvel até 1901. 

Quando retornaram à Inglaterra, os Forsters se instalaram no Kingsley Temperance Hotel, distrito de Bloomsbury e, posteriormente, ocuparam o apartamento de número 11 em Drayton Court, distrito de South Kensington, ambos em Londres.

Em A Room with a View, a casa da família Honeychurch, Windy Corner, fica localizada na rua Summer, nos arredores de Tunbridge Wells. É lá que se passa a maior parte da história. No capítulo I, A Pensão Bertolini, durante uma conversa com Lucy sobre Mr. Beebe, Charlotte Bartlett faz uma das primeiras referências a Tunbridge Wells na obra. Pouco depois, o narrador faz uma alusão pouco elogiosa à cidade.

"'Creio que todos de Windy Corner o aprovarão [Mr. Beebe]; é um mundo moderno. Estou acostumada com Tunbridge Wells, onde somos todos tão irremediavelmente atrasados.'" [...] Havia uma nuvem de desaprovação no ar, mas se esta era dirigida a si própria, ao senhor Beebe, ao mundo moderno de Windy Corner ou ao mundo tacanho de Tunbridge Wells, ela [Lucy] não sabia determinar." (tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).  

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Passeio pelo Forster Country

Em 2021, a tradicional caminhada em comemoração ao aniversário de nascimento de E. M. Forster não vai acontecer. O motivo você já pode imaginar: a justa necessidade de prevenção em meio à pandemia de Covid-19. Anualmente, moradores e visitantes da cidade de Stevenage, condado de Hertfordshire, caminham por lugares relacionados a Forster, sendo que o principal é Rooksnest, a casa onde ele viveu a maior parte de sua infância. 

Contudo, o primeiro dia do ano não passará sem algo para marcar os 142 anos do nascimento do escritor. Membros da associação The Friends of the Forster Country farão um passeio informal, com distância segura, a partir das 14h15 (horário local). Os participantes se encontrarão às 14h na entrada da St. Nicholas Church (foto ao lado). 

Como divulgado recentemente na mídia inglesa, o Forster Country está mais ameaçado do que nunca pelo avanço de empreendimentos imobiliários. É preciso aproveitar enquanto esse patrimônio verde ainda existe. 

domingo, 25 de outubro de 2020

Bom domingo e boa semana


The Grange, uma pequena escola em Stevenage, no Hertfordshire, que E. M. Forster frequentou por um breve período durante a primavera de 1893, após deixar Kent House. Sua passagem pela escola foi infeliz, marcada por bullying, medo e lágrimas. O futuro escritor tinha por volta de 14 anos. 

Seis anos antes, iniciando sua educação formal, o pequeno Forster havia tido aulas particulares com Augustus Hervey, um esnobe mestre irlandês da The Grange. Atualmente, o local é ocupado por apartamentos privados. 


Fontes: An E. M. Forster Chronology (1993), de J. H. Stape e Gay Outdoor Club;

domingo, 27 de setembro de 2020

Boa semana e boas leituras


Kent House, a escola preparatória na cidade de Eastbourne, Sussex, que E. M. Forster frequentou de 1890 até a primavera de 1893 (dos 11 aos 14 anos). Atualmente, um hotel funciona no edifício