segunda-feira, 2 de novembro de 2026

E. M. Forster em Long Island

No Brasil, o filme Love and Death on Long Island (1997) recebeu o título simplificado de Amor & Morte. 


No início de 2023, adquiri para minha coleção de filmes com temática LGBT+ o DVD de Amor & Morte (Love and Death on Long Island, 1997). Ao comprar esse filme, que eu jamais tinha assistido, não imaginava que um nome muito familiar seria citado logo nos seus primeiros minutos. Antes de prosseguirmos, confira um trecho e a sinopse desse longa britânico-canadense, dirigido por Richard Kwietniowski e baseado no romance de Gilbert Adair. 



O escritor britânico Giles De'Ath (John Hurt) passou tempo demais recluso entre seus livros. Certa vez, trancado para fora de sua própria casa, Giles acha refúgio da chuva em um cinema. Acreditando estar prestes a assistir à adaptação de uma obra literária, ele acaba entrando na sessão de uma comédia infanto-juvenil. 

Quando estava prestes a se levantar indignado com a baixa qualidade do filme, Giles De'Ath tem uma visão que o prende de volta na poltrona: o rosto de um jovem ator Ronnie Bostock (Jason Priestley). Impressionado com o rapaz, o viúvo Giles decide embarcar em uma jornada para descobrir mais sobre o dono daquela face, nem que se para isso tiver que aprender como usar um videocassete, comprar revistas adolescentes ou embarcar para Long Island. 


Sim, a tal adaptação de uma obra literária citada na sinopse é Eternal Moment, de E. M. Forster. Logicamente, se trata de um filme fictício, visto que esse conto jamais foi adaptado para o cinema. The Eternal Moment é uma das seis narrativas curtas publicadas em The Eternal Moment and Other Stories, a segunda coletânea do escritor, editada em 1928 e que já ganhou post especial aqui no blog. 

A cena do protagonista estranhando o que vê e, finalmente, deduzindo que não está assitindo uma história de E. M. Forster sempre me faz sorrir, especialmente pelo tempo que ele leva para chegar a essa conclusão. 

É interessante notar como a produção se preocupou em aproximar o cartaz de cinema da identidade visual característica das adaptações das obras de Forster. 




A paisagem montanhosa e a torre ao fundo me remeteram especialmente a Where Angels Fear to Tread (1991) e à Itália, claro, já que a história do conto se passa nesse país tão importante no legado literário do escritor.

Uma romancista chamada Srta. Raby retorna ao vilarejo de Vorta, na Itália, sobre o qual escreveu seu primeiro livro, The Eternal Moment, e se depara com as mudanças acarretadas no local após o sucesso da obra. Suas decepções estão acompanhadas das reminiscências de uma experiência amorosa que ela teve naquele lugar. 


No cartaz do filme fictício, vemos três nomes do elenco principal: Judi Maynard, Jonathan David e Maureen Bennett. É bem possível que existam referências implícitas na escolha de tais nomes, mas não consegui captá-las. 


John Hurt (Giles De'Ath), Jason Priestley (Ronnie Bostock) e Fiona Loewi (Audrey) em cena do filme. | Foto: Fabian Cevallos.

A respeito do filme em si, posso dizer que gostei bastante quando assisti anos atrás. A história da fixação do escritor Giles De'Ath - em uma atuação impecável de John Hurt - pelo jovem e bonito ator Ronnie Bostock, prendeu minha atenção do início ao fim, com um humor muito agradável. O enredo, em certa medida, remete à obra A Morte em Veneza, de Thomas Mann.

O filme completo está disponível no YouTube:


sábado, 31 de outubro de 2026

Ofertas de edições PT-BR

No post de ontem, destaquei algumas ofertas nada animadoras de livros de E. M. Forster na Estante Virtual, que reúne livreiros e sebos de todo o país. Pelo valor módico de R$ 420,00, você pode adquirir Maurice, a edição de 2006 da editora Globo. Não é tentador? Dispensando a ironia, é um alento lembrar que temos a recente edição da Ercolano, que não costuma ser encontrada por preços considerados muito acessíveis, mas mesmo assim pode ser adquirida por um valor quatro vezes menor. 

Sem dúvida, as edições da editora Globo são as mais raras e, por isso, têm os preços mais elevados. Por outro lado, ainda é possível encontrar obras publicadas pela Rocco, como A Mais Longa Jornada, por valores bem razoáveis. 

Hoje é a vez de reunir ofertas mais auspiciosas, afinal, elas existem, exigindo apenas um garimpo mais apurado. Além de anúncios da Estante Virtual, também selecionei um do Sebo do Messias, que infelizmente não dispõe de muitas obras do escritor. 

Clique na imagem para ser redirecionado ao anúncio correspondente.

Estante Virtual







Sebo do Messias

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Forster custa caro no Brasil

Em 2025, a editora Ercolano preencheu uma lacuna importante com a publicação de uma nova tradução de Maurice no mercado editorial brasileiro. No entanto, quando falamos do legado literário de E. M. Forster no contexto nacional, muitas lacunas ainda precisam ser remediadas, infelizmente. 

Antes de Maurice, no ano passado, o último livro de Forster lançado em nosso país havia sido O Ômnibus Celeste e Outros Contos, tradução de The Celestial Omnibus and Other Stories, em 2019. Quando falamos em romances, que são suas obras mais conhecidas, lá se vão 20 anos. Foi no longínquo ano de 2006 que a editora Globo concluiu a publicação de sua esmerada coleção forsteriana no Brasil, com Um Quarto com Vista, Howards End e Maurice chegando ao mercado. 

Toda a obra de Forster entrará em domínio público no Brasil somente daqui a 14 anos, em 1º de janeiro de 2041, quando o falecimento do escritor completará 70 anos, contados a partir de 01 de janeiro de 1971. A Lei 9.610/98, que trata dos direitos autorais no país, é bem clara: 

Art. 41. Os direitos patrimoniais do autor perduram por setenta anos contados de 1º de janeiro do ano subseqüente ao de seu falecimento, obedecida a ordem sucessória da lei civil.

Parágrafo único. Aplica-se às obras póstumas o prazo de proteção a que alude o caput deste artigo.

E. M. Forster não é muito conhecido no nosso país, isso é evidente. Quando os direitos de exploração econômica de sua obra expirarem daqui a 14 anos não se espera uma explosão de lançamentos de seus livros por aqui, como acontece com escritores e escritoras que gozam de um público leitor muito maior. Contudo, somente o fato de traduções de seus livros poderem ser editadas livremente, sem necessidade de autorização ou pagamento aos herdeiros, já seria um passo gigantesco para o aparecimento de novas edições. Isso também poderia motivar a publicação de obras ainda inéditas em português brasileiro, como o seu primeiro romance, Where Angels Fear to Tread.

O longo período sem lançamentos, especialmente dos romances, levou à cobrança de valores exorbitantes por livros do escritor. Basta fazer uma pesquisa online para se espantar com os preços altíssimos. 

É aquela velha história: o que nos resta é esperar. Neste caso, esperar que mais editoras sigam o exemplo da Ercolano e adquiram os direitos de publicação de obras de Forster no Brasil junto ao espólio legal do escritor. Sim, aquele copyright sempre presente no verso da folha de rosto, na mesma página da ficha catalográfica: The Provost and Scholars of King's College (O Reitor e os Acadêmicos do King's College). 

Enquanto isso, só podemos lastimar casos como estes a seguir, retirados de ofertas na Estante Virtual. Clique em cada imagem para acessar o anúncio correspondente.






quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Nova edição de Howards End

A editora nova-iorquina Union Square & Co., antiga Sterling Publishing, vai lançar uma nova edição de Howards End em 30 de março de 2027. O destaque fica para a capa, uma das mais belas que o romance já recebeu, em minha opinião. Geralmente, as ilustrações ou fotografias nas capas de Howards End não fazem jus à descrição de Forster e ao modo como imagino a casa de campo da família Wilcox, mas esta é uma exceção.



O lançamento integra a coleção Signature Editions e já pode ser comprado na pré-venda no site do Hachette Book Group, grupo editorial detentor da Union Square & Co., e em várias outras lojas online. A obra está disponível também em e-book. 

O catálogo da editora tem mais E. M. Forster: A Passage to India, lançado em fevereiro deste ano e A Room with a View, publicado em 2024. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

The Machine Stops nos cinemas?

Uma adaptação cinematográfica de The Machine Stops está em desenvolvimento pelas mãos do cineasta Rod Blackhurst. Tomei conhecimento desta informação através de uma publicação em seu perfil no X na última segunda-feira:


Clique na imagem para acessar o post original no X.

"Fui convidado a escrever um prefácio para esta nova edição da novela de E. M. Forster, de 1909, que de alguma forma prevê o que somos hoje como cultura e sociedade. Há anos que desenvolvemos um filme inspirado na obra de Forster."


A edição de The Machine Stops a qual o diretor se refere foi publicada em 18 junho deste ano pela editora Fever Dream. Em agosto, ele registrou o recebimento de exemplares da obra por meio de sua página no Instagram. 

Como podemos ver, a capa destaca que se trata da "história que inspirou o grande filme", se adiantando ao lançamento do longa. Como o próprio realizador informa, a produção está em desenvolvimento há anos, sem nenhuma previsão de estreia. Na página de Blackhurst no IMDB constam dois projetos vindouros e The Machine Stops não é um deles. Caso seja realmente lançada, será a primeira adaptação em longa-metragem do conto de Forster. 

As poucas informações que temos até o momento são de que o diretor também assina o roteiro do filme e que o argumento é dele em colaboração com Noah Lang e Bryce McGuire. Esses dados estão disponíveis na página do projeto no site da Witchcraft Motion Picture Company, produtora de cinema e televisão fundada pelo próprio Rod Blackhurst e pelo também cineasta Noah Lang. 


O diretor, roteirista e produtor Rod Blackhurst. | Foto: Simon Dixgaard via IMDB. 

A adaptação está em processo de desenvolvimento, no mínimo, desde 2020. Em 04 de março daquele ano, pouco antes da declaração oficial de pandemia global de Covid-19, o site Deadline informou que a Witchcraft Motion Picture Company tinha dois projetos de ficção científica ganhando forma: Those Among Us e The Machine Stops. No entanto, nenhum dos dois saiu do papel até o momento. 

O filme mais recente de Blackhurst é Dolly (2025), que chegou ao Brasil em maio deste ano com o título "Dolly: A Boneca Maldita".

Vou continuar acompanhando as possíveis novidades sobre esta adaptação, torcendo para que ela não tenha o mesmo destino desta anunciada em 2021 e que nunca viu a luz do dia.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

A Room with a View, o musical



Lançado oficialmente no ano passado, o musical A Room with a View continua tendo novidades divulgadas. Mas antes de falar a respeito das últimas notícias dessa produção norte-americana, é forçoso fazer um apanhado sobre o musical em si.  

O espetáculo foi idealizado pelo artista de teatro musical e compositor Cody Gerszewski, que também assina a música, letras e libreto. Com escalação de atores da Broadway, foi apresentado exclusivamente para profissionais do setor em 2024 e 2025, em Nova York. Nas duas ocasiões, a produção ficou a cargo de Scott Brusven, enquanto Katie Coleman assumiu a direção musical. 

Seguiram-se algumas apresentações em formato concerto, com parte do elenco interpretando números específicos e trechos do musical em eventos em Nova York.




Em abril deste ano, as demos de três canções do musical foram disponibilizadas em plataformas digitais. "Beautiful", "Answer Me, Lucy" e "Violets" foram adicionadas ao Spotify, chegando posteriormente ao Apple Music e YouTube. Confira a seguir:


 

Já em agosto, foi anunciado que o elenco e a banda de quatro integrantes do espetáculo gravariam um single de estúdio chamado "Florence", com a gravadora nova-iorquina Joy Machine Records. Agora chegamos às novidades divulgadas recentemente. Semana passada, o Instagram do musical comunicou que "Florence", que é a música de abertura do espetáculo, será lançada oficialmente em 04 de dezembro, com produção de Zack Berger, Scott M. Brusven, Samuel J. Olson e Ron & Anne Jacobs. É possível comprá-la na pré-venda aqui e escutar uma prévia da canção clicando na imagem abaixo.


A capa do single "Florence", que será lançado em 04 de dezembro pela Joy Machine Records. 

De acordo com o site de Cody Gerszewski, no momento os responsáveis pelo musical estão em busca de produtores, líderes e equipes de direção artística que possam ajudar a criar e aprimorar novas obras. Assim como A Passage to India, de Doug DeVita, sobre a qual falei recentemente, A Room with a View ainda não teve oportunidade de sair em uma série de apresentações por temporada, o que é uma pena. 

Desde 2024, aconteceram mudanças importantes no elenco, incluindo no casal protagonista. Lucy Honeychurch inicialmente foi interpretada por Katie Claire McGrath, papel assumido no momento por Kaley Ann Voorhees. Noah Barnes também deixou de interpretar George Emerson, passando o papel para Sean Seamus Thompson. Atores secundários também foram substituídos. Abaixo, o elenco e a banda atuais, que gravaram o single "Florence":

Elenco: 

Kaley Ann Voorhees: Lucy Honeychurch;
Sean Seamus Thompson: George Emerson;
Matthew Patrick Quinn: Sr. Emerson;
Lara Hayhurst: Charlotte Bartlett;
Robert Anthony Jones: Sr. Beebe;
Ellen Harvey: Eleanor Lavish.

Banda: 

Piano: Drew Wutke;
Flauta: Victoria Carchietta;
Violino: Adam von Housen;
Violoncelo: Sarah Overton.


Leituras recomendadas: 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Cecil Vyse Sugere [I]

Em A Room with a View (1985), Daniel Day-Lewis deu vida a Cecil Vyse.


Durante minhas pesquisas diárias sobre notícias e conteúdos relacionados a E. M. Forster sempre encontro novidades até certo ponto interessantes, mas não o suficiente para motivar um post avulso. Por isso, imaginei que seria uma boa ideia fazer posts ocasionais reunindo essas notas e informações breves. Espero que seja útil.

O nome da nova seção é Cecil Vyse Sugere simplesmente porque queria personalizá-la com uma figura forsteriana e deixar a coisa um pouco mais espirituosa. O esnobe Cecil não é nenhum grande exemplo, mas é uma figura bem singular em A Room with a View e, de certa forma, tem uma tímida redenção ou modificação positiva na sua despedida.  

Vamos, então, às sugestões do Sr. Vyse.


Em 20 de novembro, o The Morningside Institute, em Nova York, vai promover o seminário The Wish of the Machine: E.M. Forster and Technological Worship (O Desejo da Máquina: E. M. Forster e o Culto Tecnológico, em tradução livre). Os temas abordados serão "os impulsos religiosos dos tecnólogos de hoje e os usos da ficção distópica para discussões racionais sobre inteligência artificial".

O ministrante será Nathaniel Ijams, diretor de Operações do instituto e graduado em História pela Universidade de Columbia.

The Morningside Institute é uma organização sem fins lucrativos independente fundada em 2017, que promove debates sobre humanidades, artes e filosofia para estudantes universitários e recém-formados.




Falando em The Machine Stops, o conto distópico tem lugar garantido em duas listas publicadas nos últimos dias: 


"A história de Forster prevê muito mais do que o avanço tecnológico. [...] A rede global é uma previsão notável; o alerta da história sobre a dependência dela é o que mantém o livro atual."


"Ao escrever que o homem está sendo 'estrangulado nas vestes que teceu', Forster implica que o domínio genuíno da tecnologia requer a capacidade de viver sem ela."



No site da tradicional revista The American Scholar, a escritora Bonnie Friedman publicou um ensaio sobre uma mudança pessoal em relação à literatura: a capacidade de recordar do que leu mesmo após bastante tempo. Ela cita Howards End para exemplificar o momento de virada:

"Li devagar, sublinhando, desenhando estrelas, rabiscando anotações nas margens. Isso me permitiu perceber como Forster organizava os pontos da trama como peças de dominó bem próximas umas das outras. Agora eu também conseguia ver a importância estratégica do crescendo dramático que leva ao que alguns romancistas chamam de cena de fogos de artifício, que nas mãos de Forster transforma tudo, e que ocorre por volta dos 70% do livro, marcando o fim do longo segundo ato. Depois que percebi esse ponto de virada, ele me vinha à mente sempre que pensava no romance. O livro agora tinha uma forma, que se tornou uma espécie de recurso mnemônico visual, e a cena dos fogos de artifício evocava as cenas que a antecediam e as que a sucediam."

Vale a pena ler o ensaio completo: It’s All in Your Head, por Bonnie Friedman.




Inspirado pela recém-estreada adaptação de Sense and Sensibility, de Jane Austen, o site Comic Basics listou 15 filmes semelhantes ao longa. Entre eles, estão A Room with a View (1985) e Howards End (1992).







Pelo menos dois clubes de leitura internacionais estão lendo E. M. Forster. 

O primeiro é em Sirmione, uma pequena comuna italiana da região da Lombardia. E vejam só, o livro escolhido é The Machine Stops. O Sirmione Book Club English, como o próprio nome diz, dedica-se a obras em língua inglesa. A discussão do livro de Forster será em 12 de novembro, na Sirmione Public Library, quando a próxima leitura já será anunciada. 




O segundo é o Queer Book Club Houston, no Texas. Neste caso, haverá uma exibição limitada de Maurice (1987) no River Oaks Theatre em 01 de novembro, às 15h. Depois do filme, os membros do clube vão discutir o romance, às 18h, na Brazos Bookstore, a livraria independente mais antiga de Houston. 






Continuam saindo excelentes reviews da peça A Room with a View, em cartaz no Belvoir St. Theatre, em Sydney, sobre a qual falei dias atrás por aqui. Confira mais algumas: 




Para encerrar, uma imagem do filme A Handful of Dust (1988), baseado em obra de Evelyn Waugh, que assisti meses atrás. No Brasil, o longa recebeu o título Um Punhado de Pó. O elenco conta com quatro atores e atrizes que já atuaram em adaptações forsterianas: James Wilby (Maurice, 1987; Howards End, 1992), Rupert Graves (A Room with a View, 1985; Maurice, 1987; Where Angels Fear to Tread, 1991), Judi Dench (A Room with a View, 1985) e Alec Guinness (A Passage to India, 1984).


 Rupert Graves (John Beaver) e James Wilby (Tony Last) em cena de A Handful of Dust, lançado menos de um ano depois de Maurice (1987). | Foto: IMDB.


O filme de Charles Sturridge, que também dirigiu Where Angels Fear to Tread (1991), é excelente, com exceção do desfecho desesperador de Tony Last, personagem de James Wilby. Todavia, esse final é fiel à obra de Waugh, conforme minha pesquisa posterior.  

domingo, 25 de outubro de 2026

Boa semana e boas leituras

Há 114 anos, em 25 de outubro de 1912, E. M. Forster chegava à cidade de Aligarh, no estado de Uttar Pradesh, na Índia. Era a sua tão sonhada primeira viagem à então colônia britânica. 

No dia 07 daquele mês, em Nápoles, Itália, ele havia embarcado no navio SS City of Birmingham rumo à Bombaim (hoje oficialmente Mumbai), encontrando o amigo Robert 'Bob Trevy' Trevelyan a bordo. Outro amigo, Goldsworthy Lowes Dickinson, juntou-se ao grupo quatro dias depois, em Port Said, no Egito. No dia 22, após desembarcar em Bombaim, o escritor hospedou-se brevemente no Apollo Hotel.


O Apollo Hotel no final do século XIX. O edifício existe até hoje, agora conhecido como Metro House. | Foto: Alamy. 


A partida rumo a Aligarh e à fronteira norte da Índia aconteceu logo no dia seguinte, passando no caminho pelo impressionante Forte de Agra. Em Aligarh, E. M. Forster reencontrou Syed Ross Masood, seu amigo e paixão platônica, que sempre o incentivou a visitar e escrever um livro sobre a a Índia. Nos cinco dias em que permaneceu naquela cidade, Forster pode ter presenciado cenas como esta da fotografia a seguir, registrada seis anos antes.


Meninos saindo da escola após as aulas em Aligarh, 1906. | Foto: AMU Campus.


No dia 30 de outubro, os amigos viajariam para Delhi, com o Forte Vermelho e a Grande Mesquita no roteiro turístico. 

Fonte: An E. M. Forster Chronology (1993), de J. H. Stape.

sábado, 24 de outubro de 2026

115 anos de história

É notável a grande quantidade de primeiras edições de livros de E. M. Forster disponíveis para compra na internet. Basta uma pesquisa superficial para encontrar exemplares das primeiras tiragens dos romances, biografias, coleções de contos e ensaios.

Hoje destaco a oferta de um livro de 115 anos que está em excelente estado de conservação. No site da loja inglesa John Atkinson, especializada em primeiras edições, a coleção de contos The Celestial Omnibus and Other Stories está à venda por £175,00.



Publicada pela Sidgwick & Jackson em 1911, esse exemplar contém apenas algumas manchas nas bordas das páginas e leve desgaste na lombada. É ou não é uma impressionante condição para um livro de mais de um século, que já deve ter passado por tanta coisa? 

O catálogo online da loja também possui exemplares das primeiras tiragens de A Room with a View, Howards End, A Passage to India e The Eternal Moment and Other Stories. 



sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Inspiração no Surrey

Pintura de Holmbury St. Mary. | Foto: Dorking Museum.
Recentemente, falei de forma breve sobre o vilarejo Holmbury St. Mary, no condado de Surrey, que é apontado como a inspiração de E. M. Forster para a criação da Summer Street, em A Room with a View. 

O escritor viveu por mais de duas décadas com sua mãe na aldeia vizinha de Abinger Hammer e costumava visitar Holmbury St. Mary esporadicamente. Mesmo antes de se mudar para Abinger, Forster já frequentava o vilarejo desde a infância, em visitas a sua tia paterna Laura. 

O poeta e amigo Robert 'Bob Trevy' Trevelyan, seu contemporâneo da Universidade de Cambridge, morava em Holmbury, não muito distante de West Hackhurst, a casa onde Forster e sua mãe residiam. É possível supor que os amigos se visitaram algumas vezes, compartilhando o interesse em comum por literatura e música.

É na fictícia Summer Street que transcorre toda a segunda parte de A Room with a View, após os acontecimentos em Florença, Itália. Citada várias vezes no romance, é lá que fica situada Windy Corner, a casa da família Honeychurch, nos arredores da cidade de Tunbridge Wells (hoje Royal Tunbridge Wells) e onde moram outros personagens, como os Emersons e o pároco Sr. Beebe.   


Uma vista panorâmica de Holmbury St. Mary. | Foto: Dorking Museum.


Pois bem. Naquela ocasião, percebi que poderia explorar mais o assunto e creio que, antes de falar da inspiração em si, podemos começar pela tradução de Summer Street nas edições brasileiras. Aulyde Soares Rodrigues, que assina a tradução da editora Rocco publicada em 1988, optou por "bairro Summer Street", enquanto Marcelo Pen preferiu "rua Summer" na edição da Globo de 2006.

"A Srta. Honeychurch mora no bairro de Summer Street - disse a Srta. Bartlett, complementando a informação - e contou-me do curso de uma conversa que o senhor [Sr. Beebe] acaba de aceitar a residência..." (Primeira Parte, capítulo 1, "A Bertolini"; tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, 1988).


"A senhorita Honeychurch mora na paróquia da rua Summer", disse a senhorita Bartlett, explicando a alusão, “e ela justamente me contava, em meio à conversa, que o senhor acaba de aceitar a oferta..." (Parte I, capítulo 1, "A Pensão Bertolini"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Não pretendo entrar no mérito de qual tradução é a mais correta, contudo, se tivesse que escolher a que mais me agrada, seria a de Aulyde Soares, pelo simples fato de "bairro" englobar um espaço de maiores proporções e assim transmitir uma ideia mais ampla da vizinhança dos Honeychurch. É relevante mencionar que a absoluta maioria das fontes em inglês se refere a Summer Street como "village". 


O antigo Correio de Holmbury St. Mary, historicamente conhecido como "Post Office in the Pines" (Correio nos Pinheiros). Foto: Dorking Museum.


Vejamos mais um trecho em que o local é citado no romance:

"[...] Que lugar é este? [Cecil Vyse pergunta]

- Summer Street, é claro - disse Lucy, animando-se.

Os bosques se abriam agora, dando espaço para uma campina triangular e inclinada. Lindas casas alinhavam-se nos dois lados e a parte mais alta era ocupada por uma igreja de pedra recém-construída, de simplicidade dispendiosa, com uma torre encantadora. A casa do Sr. Beebe ficava ao lado da igreja. Em altura, ela mal se diferenciava das outras. Havia algumas mansões também, mas estavam escondidas pelas árvores. A cena sugeria uma montanha na Suíça mais do que o sacrário e centro de um mundo de lazer, só desfigurada por duas feiosas pequenas vilas - as vilas que haviam competido com o noivado de Cecil, compradas por Sir Herry [sic] Otway na mesma tarde em que Lucy fora adquirida por ele. 

Cissie, o nome de uma delas, Albert o da outra, estavam escritos em letras góticas sombreadas nos portões do jardim e repetidos nas varandas cobertas, onde seguiam a curva semicircular do arco de entrada em grandes maiúsculas. Albert estava ocupada. Seu jardim extremamente artificial cintilava com gerânios e lobélias entre conchas polidas. As pequenas janelas recobriam-se castamente com renda Nothingham. Cissie estava para alugar. Três tabuletas de agentes de Dorking balançavam na cerca do jardim, anunciando o fato não muito surpreendente. Os caminhos entre os canteiros já estavam cobertos de mato; seu gramado, do tamanho de um lenço, amarelado, cheio de dente-de-leão.

- Este lugar está arruinado! - disseram as senhoras automaticamente - Summer Street jamais será a mesma." (Parte II, capítulo 9, "Lucy como uma obra de arte"; tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, 1988).

Note que o narrador compara a cena à Suíça. É uma analogia mais que apropriada, visto que Holmbury St. Mary é conhecida como Pequena Suíça devido à forma como suas casas imponentes estão espalhadas pelas encostas de Holmbury Hill. O apelido certamente já existia na época de Forster. Falando em Holmbury Hill, sua encosta sul costuma ser apontada como a localização de Windy Corner. 


Ao fundo da paisagem, vê-se Holmbury Hill. | Foto: Ian Capper/Geography.org.uk. 


No capítulo 2, Lucy, em diálogo com a senhorita Lavish, dá mais detalhes da propriedade: 

"[...] Fica nas colinas de Surrey. Cerca de sete quilômetros de Dorking, com vista para a região do Weald."

"Oh, vocês têm propriedades em Surrey?"

"Quase nada", protestou Lucy, temerosa de ser considerada uma esnobe. "Somente trinta acres... apenas o jardim, todo o sopé do morro e uns prados." (Parte I, capítulo 2, "Em Santa Croce sem o Baedeker"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

O lago da famosa e divertida cena do banho ao ar livre de Freddy Honeychurch, George Emerson e Sr. Beebe, no 12º capítulo, teria sido inspirado em uma lagoa situada na trilha que leva ao topo de Holmbury Hill. E. M. Forster conhecia bem a geografia e os pequenos cursos d'água dessa área vizinha a Abinger Hammer. 

"Quer realmente nadar?", Freddy perguntou-lhe. "É somente um laguinho, sabe. Creio que deve estar acostumado com coisas bem melhores."

"Lá está o lago. Queria que fosse maior", ele ajuntou, em tom de desculpa. Desceram por uma ribanceira escorregadia, forrada de folhas de pinheiro. Ali repousava o reservatório, instalado em seu pequeno monte verdejante — apenas um laguinho, mas grande o bastante para conter um corpo humano, e límpido o bastante para refletir o céu. Por causa das chuvas, as águas avançaram pela grama circundante, que formavam como que uma bela trilha esmeralda, aliciando os pés na direção do poço central. "É evidentemente razoável, no quesito lacustre", sentenciou o senhor Beebe. "Não é preciso desculpar-se pelo lago."

Tratava-se de águas ordinárias; tampouco manavam em profusão. Além do mais, conforme Freddy declarou, davam aos banhistas a impressão de que nadavam numa salada. (Parte II, 12º capítulo; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Lago em Holmbury St. Mary (imagem apenas ilustrativa). | Foto: See Around Britain.


Alguns capítulos antes, Lucy se refere ao lago como "sagrado", durante um passeio com o noivo Cecil pelo bosque entre Summer Street e Windy Corner, pouco antes do primeiro beijo do casal. Esse adjetivo seria usado algumas outras vezes no romance para se referir ao lago, praticamente nomeando-o. 

Logo chegaram a uma pequena clareira entre os pinheiros — outro pequenino alpe verdejante, solitário desta feita, exibindo um laguinho raso em seu regaço.

Ela exclamou: "O Lago Sagrado!".

"Por que o chama desse jeito?"

"Não consigo atinar a razão. Suponho que seja por causa de um livro. É apenas um tanque agora, mas pode ver o regato que o atravessa? Bem, muita água chega com as chuvas torrenciais e, como não pode seguir adiante, toda de uma vez, o açude cresce e torna-se belo. Freddy costumava nadar aqui. Ele gosta muito do local." (Parte II, capítulo 9, "Lucy como uma obra de arte"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Em dos trechos acima, é citada a igreja da paróquia de Summer Street. Na parte mais alta do vilarejo, a "igreja de pedra recém-construída, de simplicidade dispendiosa, com uma torre encantadora" teve sua representação inspirada pela igreja de St. Mary the Virgin, o templo local de Holmbury, projetado pelo arquiteto George Edmund Street (1824–1881). 

"[...] sua igreja, erigida com tanto esmero na encosta de um morro, com seu belo transepto alto e torre de pedregulhos prateados [...]" (Parte II, capítulo 19, "Mentindo para o Senhor Emerson; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

A igreja de St. Mary the Virgin, em Holmbury St. Mary. | Foto: Dr. Neil Clifton/Geography.org.uk.


Além da pitoresca Holmbury St. Mary, o pequeno vilarejo vizinho de Friday Street, na encosta norte de Leith Hill, também costuma ser citado como uma das inspirações para Summer Street. 

Aqui, falamos especificamente sobre locais, todavia, é seguro afirmar que Forster também deve ter tomado vários habitantes da região como referências para construir os personagens de seu terceiro romance publicado.