Amanhã, o Dorking Museum, no condado de Surrey, vai promover uma exposição pop-up que tem E. M. Forster como um dos seus personagens de destaque. Refugee Voices from World War II: Cultural Crossroads in Dorking (em tradução livre, Vozes de Refugiados da Segunda Guerra Mundial: Encruzilhadas Culturais em Dorking) enfoca o conjunto de ações solidárias dos habitantes do Surrey em relação aos refugiados do conflito, especialmente os oriundos da Alemanha nazista e outros países da Europa Central a partir de 1938.
Durante todo o dia, os visitantes poderão conhecer as histórias de pessoas que foram obrigadas a deixar seus lares e também daqueles que as acolheram e ajudaram a encontrar abrigo no condado. Curadores, historiadores e professores estarão presentes para conversar com o público e refletir sobre os esforços humanitários de pessoas comuns que moldaram a posição da cidade de Dorking diante de uma realidade tão sombria. A mostra integra o Being Human Festival 2026, da Universidade de Surrey, que acontece de 05 a 14 de novembro.
Se na Primeira Guerra Mundial, E. M Forster atuou como pesquisador da Cruz Vermelha, entrevistando soldados feridos para obter informações sobre combatentes desaparecidos, na Segunda Grande Guerra sua cooperação se deu de outra forma. Em 1939, já um sexagenário, o escritor ajudou a fundar e liderar o Dorking and District Refugee Committee (Comitê de Refugiados de Dorking), que permaneceu ativo durante 11 anos, de 1938 a 1949. Forster foi o vice-presidente da comissão, enquanto o compositor Ralph Vaughan Williams, seu amigo e vizinho, ocupou a função de presidente. Antes do conflito, ambos haviam trabalhado nas peças teatrais históricas Abinger Pageant (1934) e England’s Pleasant Land (1938).
Ao centro, E. M. Forster e o compositor Ralph Vaughan Williams discutindo o Abinger Pageant em 1934, cinco anos antes da eclosão da guerra. | Foto: E. M. Forster: A Life, de P. N. Furbank, Harcourt Brace Jovanovich, 1977-1978.
Os voluntários do Comitê de Refugiados de Dorking encontravam moradia (em propriedades locais como Fairhaven em Holmbury St. Mary, Burchett House e Clarendon House), trabalho, vagas em escolas, empréstimos e assistência médica para os refugiados - adultos e crianças - que chegavam à cidade. O trabalho do escritor nesse contexto delicado é destacado na exposição do Dorking Museum. A página da instituição no Instagram postou uma prévia dos conteúdos aos quais os visitantes terão acesso e um dos painéis traz referência a E. M. Forster:
E. M. Forster (1879-1970) é mais conhecido como autor de romances como A Room with a View (1908), Howards End (1910) e A Passage to India (1924). Algumas de suas obras literárias foram inspiradas pelos períodos de sua vida que passou em Surrey, particularmente as peças teatrais que escreveu em parceria com Ralph Vaughan Williams, retratando a vida rural de Surrey e protestando contra as forças da mudança e da industrialização. Forster era um humanista e objetor de consciência que usou sua posição como locutor da BBC para comunicar a importância da tolerância e da conexão cultural durante períodos difíceis em seu país. Embora seu nome apareça intermitentemente nas atas do Comitê de Refugiados de Dorking, seu trabalho para o Comitê – especialmente em relação àqueles ameaçados de internação – revela a importância que a causa tinha para ele.
E. M. Forster nos arquivos do Comitê de Refugiados de Dorking
Há muitos anos, o Dorking Museum mantém em seus arquivos uma coleção de documentos que registram as ações do comitê, como cartas, fotografias, atas de reuniões, ordens de pagamentos e questionários para tribunais. Até pouco tempo, esses registros existiam apenas em papel, mas este ano foram digitalizados por meio de uma parceria com a Universidade de Surrey.
Desde 24 de setembro, o público em geral pode acessá-los pelo site Dorking Refugee Archive, que organiza o trabalho do comitê em cinco temas: Solidariedade, Cuidado com os refugiados, Crianças, Os anos do pós-guerra e As pessoas envolvidas. O material também está sendo disponibilizado para escolas locais, pesquisadores e grupos comunitários, acompanhado de recursos educacionais.
Refugiados tchecos da região dos Sudetos em um momento descontraído em Dorking. | Foto: Dorking Musem.
Cartas e documentos assinados por E. M. Forster fazem parte desses arquivos de grande valor histórico. Um dos casos que teve envolvimento direto do escritor foi o de Erika Schmidt-Landry, uma ex-jornalista alemã, mãe de três filhos. Seu marido foi internado na Ilha de Man ainda no início do conflito em 1939 e Erika receava ter o mesmo destino.
Assim que a guerra foi declarada, cidadãos alemães e tchecos passaram a ser aprisionados em campos de internação como "enemy aliens" (estrangeiros inimigos). Diante desse cenário, o Comitê de Refugiados de Dorking os ajudava a apresentar pedidos aos tribunais do Ministério do Interior para garantir sua liberdade, além de prepará-los para enfrentar as audiências nas quais teriam que provar que não representavam uma ameaça e que poderiam ser úteis às suas comunidades.
Forster e Vaughan Williams intervieram diretamente em defesa de Erika perante as autoridades governamentais quando ela se viu obrigada a colocar os seus filhos pequenos num orfanato. O apoio do comitê foi crucial para que ela continuasse em liberdade. Ambos também se voluntariaram para assistir às audiências e recursos nos tribunais em casos semelhantes, além de solicitar a libertação de músicos, pensadores e acadêmicos judeus internados. O editor Victor Gollancz, amigo de Forster, foi um dos que colaboraram com a causa de alguns internados.

Para Forster, não bastava fornecer comida e teto aos refugiados. Suas cartas evidenciam que o apoio humanitário deveria seguir um modelo de assistência integrada, garantindo cuidados médicos, educação que resguardasse as crenças religiosas individuais e a doação de instrumentos musicais para auxiliar no processo de recuperação do trauma da guerra. Como presidente do National Council for Civil Liberties (Conselho Nacional de Liberdades Civis), atual Liberty, ele atuou fortemente em defesa dos direitos civis, utilizando essa plataforma para conscientizar sobre a importância de combater a censura e a discriminação contra refugiados que buscavam proteção no Reino Unido.
Nos dias atuais, o comitê fundado por Forster e Vaughan Williams é uma inspiração para o grupo Dorking Refugee Support (Apoio a Refugiados em Dorking), que dá suporte àqueles que foram deslocados pela guerra e pela opressão.
Logo abaixo você vê um dos vários questionários para tribunais, com o nome de E. M. Forster na lista de integrantes do Comitê Geral.
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