quarta-feira, 28 de outubro de 2026

The Machine Stops nos cinemas?

Uma adaptação cinematográfica de The Machine Stops está em desenvolvimento pelas mãos do cineasta Rod Blackhurst. Tomei conhecimento desta informação através de uma publicação em seu perfil no X na última segunda-feira:


Clique na imagem para acessar o post original no X.

"Fui convidado a escrever um prefácio para esta nova edição da novela de E. M. Forster, de 1909, que de alguma forma prevê o que somos hoje como cultura e sociedade. Há anos que desenvolvemos um filme inspirado na obra de Forster."


A edição de The Machine Stops a qual o diretor se refere foi publicada em 18 junho deste ano pela editora Fever Dream. Em agosto, ele registrou o recebimento de exemplares da obra por meio de sua página no Instagram. 

Como podemos ver, a capa destaca que se trata da "história que inspirou o grande filme", se adiantando ao lançamento do longa. Como o próprio realizador informa, a produção está em desenvolvimento há anos, sem nenhuma previsão de estreia. Na página de Blackhurst no IMDB constam dois projetos vindouros e The Machine Stops não é um deles. Caso seja realmente lançada, será a primeira adaptação em longa-metragem do conto de Forster. 

As poucas informações que temos até o momento são de que o diretor também assina o roteiro do filme e que o argumento é dele em colaboração com Noah Lang e Bryce McGuire. Esses dados estão disponíveis na página do projeto no site da Witchcraft Motion Picture Company, produtora de cinema e televisão fundada pelo próprio Rod Blackhurst e pelo também cineasta Noah Lang. 


O diretor, roteirista e produtor Rod Blackhurst. | Foto: Simon Dixgaard via IMDB. 

A adaptação está em processo de desenvolvimento, no mínimo, desde 2020. Em 04 de março daquele ano, pouco antes da declaração oficial de pandemia global de Covid-19, o site Deadline informou que a Witchcraft Motion Picture Company tinha dois projetos de ficção científica ganhando forma: Those Among Us e The Machine Stops. No entanto, nenhum dos dois saiu do papel até o momento. 

O filme mais recente de Blackhurst é Dolly (2025), que chegou ao Brasil em maio deste ano com o título "Dolly: A Boneca Maldita".

Vou continuar acompanhando as possíveis novidades sobre esta adaptação, torcendo para que ela não tenha o mesmo destino desta anunciada em 2021 e que nunca viu a luz do dia.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

A Room with a View, o musical



Lançado oficialmente no ano passado, o musical A Room with a View continua tendo novidades divulgadas. Mas antes de falar a respeito das últimas notícias dessa produção norte-americana, é forçoso fazer um apanhado sobre o musical em si.  

O espetáculo foi idealizado pelo artista de teatro musical e compositor Cody Gerszewski, que também assina a música, letras e libreto. Com escalação de atores da Broadway, foi apresentado exclusivamente para profissionais do setor em 2024 e 2025, em Nova York. Nas duas ocasiões, a produção ficou a cargo de Scott Brusven, enquanto Katie Coleman assumiu a direção musical. 

Seguiram-se algumas apresentações em formato concerto, com parte do elenco interpretando números específicos e trechos do musical em eventos em Nova York.




Em abril deste ano, as demos de três canções do musical foram disponibilizadas em plataformas digitais. "Beautiful", "Answer Me, Lucy" e "Violets" foram adicionadas ao Spotify, chegando posteriormente ao Apple Music e YouTube. Confira a seguir:


 

Já em agosto, foi anunciado que o elenco e a banda de quatro integrantes do espetáculo gravariam um single de estúdio chamado "Florence", com a gravadora nova-iorquina Joy Machine Records. Agora chegamos às novidades divulgadas recentemente. Semana passada, o Instagram do musical comunicou que "Florence", que é a música de abertura do espetáculo, será lançada oficialmente em 04 de dezembro, com produção de Zack Berger, Scott M. Brusven, Samuel J. Olson e Ron & Anne Jacobs. É possível comprá-la na pré-venda aqui e escutar uma prévia da canção clicando na imagem abaixo.


A capa do single "Florence", que será lançado em 04 de dezembro pela Joy Machine Records. 

De acordo com o site de Cody Gerszewski, no momento os responsáveis pelo musical estão em busca de produtores, líderes e equipes de direção artística que possam ajudar a criar e aprimorar novas obras. Assim como A Passage to India, de Doug DeVita, sobre a qual falei recentemente, A Room with a View ainda não teve oportunidade de sair em uma série de apresentações por temporada, o que é uma pena. 

Desde 2024, aconteceram mudanças importantes no elenco, incluindo no casal protagonista. Lucy Honeychurch inicialmente foi interpretada por Katie Claire McGrath, papel assumido no momento por Kaley Ann Voorhees. Noah Barnes também deixou de interpretar George Emerson, passando o papel para Sean Seamus Thompson. Atores secundários também foram substituídos. Abaixo, o elenco e a banda atuais, que gravaram o single "Florence":

Elenco: 

Kaley Ann Voorhees: Lucy Honeychurch;
Sean Seamus Thompson: George Emerson;
Matthew Patrick Quinn: Sr. Emerson;
Lara Hayhurst: Charlotte Bartlett;
Robert Anthony Jones: Sr. Beebe;
Ellen Harvey: Eleanor Lavish.

Banda: 

Piano: Drew Wutke;
Flauta: Victoria Carchietta;
Violino: Adam von Housen;
Violoncelo: Sarah Overton.


Leituras recomendadas: 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Cecil Vyse Sugere [I]

Em A Room with a View (1985), Daniel Day-Lewis deu vida a Cecil Vyse.


Durante minhas pesquisas diárias sobre notícias e conteúdos relacionados a E. M. Forster sempre encontro novidades até certo ponto interessantes, mas não o suficiente para motivar um post avulso. Por isso, imaginei que seria uma boa ideia fazer posts ocasionais reunindo essas notas e informações breves. Espero que seja útil.

O nome da nova seção é Cecil Vyse Sugere simplesmente porque queria personalizá-la com uma figura forsteriana e deixar a coisa um pouco mais espirituosa. O esnobe Cecil não é nenhum grande exemplo, mas é uma figura bem singular em A Room with a View e, de certa forma, tem uma tímida redenção ou modificação positiva na sua despedida.  

Vamos, então, às sugestões do Sr. Vyse.


Em 20 de novembro, o The Morningside Institute, em Nova York, vai promover o seminário The Wish of the Machine: E.M. Forster and Technological Worship (O Desejo da Máquina: E. M. Forster e o Culto Tecnológico, em tradução livre). Os temas abordados serão "os impulsos religiosos dos tecnólogos de hoje e os usos da ficção distópica para discussões racionais sobre inteligência artificial".

O ministrante será Nathaniel Ijams, diretor de Operações do instituto e graduado em História pela Universidade de Columbia.

The Morningside Institute é uma organização sem fins lucrativos independente fundada em 2017, que promove debates sobre humanidades, artes e filosofia para estudantes universitários e recém-formados.




Falando em The Machine Stops, o conto distópico tem lugar garantido em duas listas publicadas nos últimos dias: 


"A história de Forster prevê muito mais do que o avanço tecnológico. [...] A rede global é uma previsão notável; o alerta da história sobre a dependência dela é o que mantém o livro atual."


"Ao escrever que o homem está sendo 'estrangulado nas vestes que teceu', Forster implica que o domínio genuíno da tecnologia requer a capacidade de viver sem ela."



No site da tradicional revista The American Scholar, a escritora Bonnie Friedman publicou um ensaio sobre uma mudança pessoal em relação à literatura: a capacidade de recordar do que leu mesmo após bastante tempo. Ela cita Howards End para exemplificar o momento de virada:

"Li devagar, sublinhando, desenhando estrelas, rabiscando anotações nas margens. Isso me permitiu perceber como Forster organizava os pontos da trama como peças de dominó bem próximas umas das outras. Agora eu também conseguia ver a importância estratégica do crescendo dramático que leva ao que alguns romancistas chamam de cena de fogos de artifício, que nas mãos de Forster transforma tudo, e que ocorre por volta dos 70% do livro, marcando o fim do longo segundo ato. Depois que percebi esse ponto de virada, ele me vinha à mente sempre que pensava no romance. O livro agora tinha uma forma, que se tornou uma espécie de recurso mnemônico visual, e a cena dos fogos de artifício evocava as cenas que a antecediam e as que a sucediam."

Vale a pena ler o ensaio completo: It’s All in Your Head, por Bonnie Friedman.




Inspirado pela recém-estreada adaptação de Sense and Sensibility, de Jane Austen, o site Comic Basics listou 15 filmes semelhantes ao longa. Entre eles, estão A Room with a View (1985) e Howards End (1992).







Pelo menos dois clubes de leitura internacionais estão lendo E. M. Forster. 

O primeiro é em Sirmione, uma pequena comuna italiana da região da Lombardia. E vejam só, o livro escolhido é The Machine Stops. O Sirmione Book Club English, como o próprio nome diz, dedica-se a obras em língua inglesa. A discussão do livro de Forster será em 12 de novembro, na Sirmione Public Library, quando a próxima leitura já será anunciada. 




O segundo é o Queer Book Club Houston, no Texas. Neste caso, haverá uma exibição limitada de Maurice (1987) no River Oaks Theatre em 01 de novembro, às 15h. Depois do filme, os membros do clube vão discutir o romance, às 18h, na Brazos Bookstore, a livraria independente mais antiga de Houston. 






Continuam saindo excelentes reviews da peça A Room with a View, em cartaz no Belvoir St. Theatre, em Sydney, sobre a qual falei dias atrás por aqui. Confira mais algumas: 




Para encerrar, uma imagem do filme A Handful of Dust (1988), baseado em obra de Evelyn Waugh, que assisti meses atrás. No Brasil, o longa recebeu o título Um Punhado de Pó. O elenco conta com quatro atores e atrizes que já atuaram em adaptações forsterianas: James Wilby (Maurice, 1987; Howards End, 1992), Rupert Graves (A Room with a View, 1985; Maurice, 1987; Where Angels Fear to Tread, 1991), Judi Dench (A Room with a View, 1985) e Alec Guinness (A Passage to India, 1984).


 Rupert Graves (John Beaver) e James Wilby (Tony Last) em cena de A Handful of Dust, lançado menos de um ano depois de Maurice (1987). | Foto: IMDB.


O filme de Charles Sturridge, que também dirigiu Where Angels Fear to Tread (1991), é excelente, com exceção do desfecho desesperador de Tony Last, personagem de James Wilby. Todavia, esse final é fiel à obra de Waugh, conforme minha pesquisa posterior.  

domingo, 25 de outubro de 2026

Boa semana e boas leituras

Há 114 anos, em 25 de outubro de 1912, E. M. Forster chegava à cidade de Aligarh, no estado de Uttar Pradesh, na Índia. Era a sua tão sonhada primeira viagem à então colônia britânica. 

No dia 07 daquele mês, em Nápoles, Itália, ele havia embarcado no navio SS City of Birmingham rumo à Bombaim (hoje oficialmente Mumbai), encontrando o amigo Robert 'Bob Trevy' Trevelyan a bordo. Outro amigo, Goldsworthy Lowes Dickinson, juntou-se ao grupo quatro dias depois, em Port Said, no Egito. No dia 22, após desembarcar em Bombaim, o escritor hospedou-se brevemente no Apollo Hotel.


O Apollo Hotel no final do século XIX. O edifício existe até hoje, agora conhecido como Metro House. | Foto: Alamy. 


A partida rumo a Aligarh e à fronteira norte da Índia aconteceu logo no dia seguinte, passando no caminho pelo impressionante Forte de Agra. Em Aligarh, E. M. Forster reencontrou Syed Ross Masood, seu amigo e paixão platônica, que sempre o incentivou a visitar e escrever um livro sobre a a Índia. Nos cinco dias em que permaneceu naquela cidade, Forster pode ter presenciado cenas como esta da fotografia a seguir, registrada seis anos antes.


Meninos saindo da escola após as aulas em Aligarh, 1906. | Foto: AMU Campus.


No dia 30 de outubro, os amigos viajariam para Delhi, com o Forte Vermelho e a Grande Mesquita no roteiro turístico. 

Fonte: An E. M. Forster Chronology (1993), de J. H. Stape.

sábado, 24 de outubro de 2026

115 anos de história

É notável a grande quantidade de primeiras edições de livros de E. M. Forster disponíveis para compra na internet. Basta uma pesquisa superficial para encontrar exemplares das primeiras tiragens dos romances, biografias, coleções de contos e ensaios.

Hoje destaco a oferta de um livro de 115 anos que está em excelente estado de conservação. No site da loja inglesa John Atkinson, especializada em primeiras edições, a coleção de contos The Celestial Omnibus and Other Stories está à venda por £175,00.



Publicada pela Sidgwick & Jackson em 1911, esse exemplar contém apenas algumas manchas nas bordas das páginas e leve desgaste na lombada. É ou não é uma impressionante condição para um livro de mais de um século, que já deve ter passado por tanta coisa? 

O catálogo online da loja também possui exemplares das primeiras tiragens de A Room with a View, Howards End, A Passage to India e The Eternal Moment and Other Stories. 



sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Inspiração no Surrey

Pintura de Holmbury St. Mary. | Foto: Dorking Museum.
Recentemente, falei de forma breve sobre o vilarejo Holmbury St. Mary, no condado de Surrey, que é apontado como a inspiração de E. M. Forster para a criação da Summer Street, em A Room with a View. 

O escritor viveu por mais de duas décadas com sua mãe na aldeia vizinha de Abinger Hammer e costumava visitar Holmbury St. Mary esporadicamente. Mesmo antes de se mudar para Abinger, Forster já frequentava o vilarejo desde a infância, em visitas a sua tia paterna Laura. 

O poeta e amigo Robert 'Bob Trevy' Trevelyan, seu contemporâneo da Universidade de Cambridge, morava em Holmbury, não muito distante de West Hackhurst, a casa onde Forster e sua mãe residiam. É possível supor que os amigos se visitaram algumas vezes, compartilhando o interesse em comum por literatura e música.

É na fictícia Summer Street que transcorre toda a segunda parte de A Room with a View, após os acontecimentos em Florença, Itália. Citada várias vezes no romance, é lá que fica situada Windy Corner, a casa da família Honeychurch, nos arredores da cidade de Tunbridge Wells (hoje Royal Tunbridge Wells) e onde moram outros personagens, como os Emersons e o pároco Sr. Beebe.   


Uma vista panorâmica de Holmbury St. Mary. | Foto: Dorking Museum.


Pois bem. Naquela ocasião, percebi que poderia explorar mais o assunto e creio que, antes de falar da inspiração em si, podemos começar pela tradução de Summer Street nas edições brasileiras. Aulyde Soares Rodrigues, que assina a tradução da editora Rocco publicada em 1988, optou por "bairro Summer Street", enquanto Marcelo Pen preferiu "rua Summer" na edição da Globo de 2006.

"A Srta. Honeychurch mora no bairro de Summer Street - disse a Srta. Bartlett, complementando a informação - e contou-me do curso de uma conversa que o senhor [Sr. Beebe] acaba de aceitar a residência..." (Primeira Parte, capítulo 1, "A Bertolini"; tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, 1988).


"A senhorita Honeychurch mora na paróquia da rua Summer", disse a senhorita Bartlett, explicando a alusão, “e ela justamente me contava, em meio à conversa, que o senhor acaba de aceitar a oferta..." (Parte I, capítulo 1, "A Pensão Bertolini"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Não pretendo entrar no mérito de qual tradução é a mais correta, contudo, se tivesse que escolher a que mais me agrada, seria a de Aulyde Soares, pelo simples fato de "bairro" englobar um espaço de maiores proporções e assim transmitir uma ideia mais ampla da vizinhança dos Honeychurch. É relevante mencionar que a absoluta maioria das fontes em inglês se refere a Summer Street como "village". 


O antigo Correio de Holmbury St. Mary, historicamente conhecido como "Post Office in the Pines" (Correio nos Pinheiros). Foto: Dorking Museum.


Vejamos mais um trecho em que o local é citado no romance:

"[...] Que lugar é este? [Cecil Vyse pergunta]

- Summer Street, é claro - disse Lucy, animando-se.

Os bosques se abriam agora, dando espaço para uma campina triangular e inclinada. Lindas casas alinhavam-se nos dois lados e a parte mais alta era ocupada por uma igreja de pedra recém-construída, de simplicidade dispendiosa, com uma torre encantadora. A casa do Sr. Beebe ficava ao lado da igreja. Em altura, ela mal se diferenciava das outras. Havia algumas mansões também, mas estavam escondidas pelas árvores. A cena sugeria uma montanha na Suíça mais do que o sacrário e centro de um mundo de lazer, só desfigurada por duas feiosas pequenas vilas - as vilas que haviam competido com o noivado de Cecil, compradas por Sir Herry [sic] Otway na mesma tarde em que Lucy fora adquirida por ele. 

Cissie, o nome de uma delas, Albert o da outra, estavam escritos em letras góticas sombreadas nos portões do jardim e repetidos nas varandas cobertas, onde seguiam a curva semicircular do arco de entrada em grandes maiúsculas. Albert estava ocupada. Seu jardim extremamente artificial cintilava com gerânios e lobélias entre conchas polidas. As pequenas janelas recobriam-se castamente com renda Nothingham. Cissie estava para alugar. Três tabuletas de agentes de Dorking balançavam na cerca do jardim, anunciando o fato não muito surpreendente. Os caminhos entre os canteiros já estavam cobertos de mato; seu gramado, do tamanho de um lenço, amarelado, cheio de dente-de-leão.

- Este lugar está arruinado! - disseram as senhoras automaticamente - Summer Street jamais será a mesma." (Parte II, capítulo 9, "Lucy como uma obra de arte"; tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, 1988).

Note que o narrador compara a cena à Suíça. É uma analogia mais que apropriada, visto que Holmbury St. Mary é conhecida como Pequena Suíça devido à forma como suas casas imponentes estão espalhadas pelas encostas de Holmbury Hill. O apelido certamente já existia na época de Forster. Falando em Holmbury Hill, sua encosta sul costuma ser apontada como a localização de Windy Corner. 


Ao fundo da paisagem, vê-se Holmbury Hill. | Foto: Ian Capper/Geography.org.uk. 


No capítulo 2, Lucy, em diálogo com a senhorita Lavish, dá mais detalhes da propriedade: 

"[...] Fica nas colinas de Surrey. Cerca de sete quilômetros de Dorking, com vista para a região do Weald."

"Oh, vocês têm propriedades em Surrey?"

"Quase nada", protestou Lucy, temerosa de ser considerada uma esnobe. "Somente trinta acres... apenas o jardim, todo o sopé do morro e uns prados." (Parte I, capítulo 2, "Em Santa Croce sem o Baedeker"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

O lago da famosa e divertida cena do banho ao ar livre de Freddy Honeychurch, George Emerson e Sr. Beebe, no 12º capítulo, teria sido inspirado em uma lagoa situada na trilha que leva ao topo de Holmbury Hill. E. M. Forster conhecia bem a geografia e os pequenos cursos d'água dessa área vizinha a Abinger Hammer. 

"Quer realmente nadar?", Freddy perguntou-lhe. "É somente um laguinho, sabe. Creio que deve estar acostumado com coisas bem melhores."

"Lá está o lago. Queria que fosse maior", ele ajuntou, em tom de desculpa. Desceram por uma ribanceira escorregadia, forrada de folhas de pinheiro. Ali repousava o reservatório, instalado em seu pequeno monte verdejante — apenas um laguinho, mas grande o bastante para conter um corpo humano, e límpido o bastante para refletir o céu. Por causa das chuvas, as águas avançaram pela grama circundante, que formavam como que uma bela trilha esmeralda, aliciando os pés na direção do poço central. "É evidentemente razoável, no quesito lacustre", sentenciou o senhor Beebe. "Não é preciso desculpar-se pelo lago."

Tratava-se de águas ordinárias; tampouco manavam em profusão. Além do mais, conforme Freddy declarou, davam aos banhistas a impressão de que nadavam numa salada. (Parte II, 12º capítulo; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Lago em Holmbury St. Mary (imagem apenas ilustrativa). | Foto: See Around Britain.


Alguns capítulos antes, Lucy se refere ao lago como "sagrado", durante um passeio com o noivo Cecil pelo bosque entre Summer Street e Windy Corner, pouco antes do primeiro beijo do casal. Esse adjetivo seria usado algumas outras vezes no romance para se referir ao lago, praticamente nomeando-o. 

Logo chegaram a uma pequena clareira entre os pinheiros — outro pequenino alpe verdejante, solitário desta feita, exibindo um laguinho raso em seu regaço.

Ela exclamou: "O Lago Sagrado!".

"Por que o chama desse jeito?"

"Não consigo atinar a razão. Suponho que seja por causa de um livro. É apenas um tanque agora, mas pode ver o regato que o atravessa? Bem, muita água chega com as chuvas torrenciais e, como não pode seguir adiante, toda de uma vez, o açude cresce e torna-se belo. Freddy costumava nadar aqui. Ele gosta muito do local." (Parte II, capítulo 9, "Lucy como uma obra de arte"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Em dos trechos acima, é citada a igreja da paróquia de Summer Street. Na parte mais alta do vilarejo, a "igreja de pedra recém-construída, de simplicidade dispendiosa, com uma torre encantadora" teve sua representação inspirada pela igreja de St. Mary the Virgin, o templo local de Holmbury, projetado pelo arquiteto George Edmund Street (1824–1881). 

"[...] sua igreja, erigida com tanto esmero na encosta de um morro, com seu belo transepto alto e torre de pedregulhos prateados [...]" (Parte II, capítulo 19, "Mentindo para o Senhor Emerson; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

A igreja de St. Mary the Virgin, em Holmbury St. Mary. | Foto: Dr. Neil Clifton/Geography.org.uk.


Além da pitoresca Holmbury St. Mary, o pequeno vilarejo vizinho de Friday Street, na encosta norte de Leith Hill, também costuma ser citado como uma das inspirações para Summer Street. 

Aqui, falamos especificamente sobre locais, todavia, é seguro afirmar que Forster também deve ter tomado vários habitantes da região como referências para construir os personagens de seu terceiro romance publicado.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Maurice, inesquecível

Ilustração: Marine Buffard.

O site da revista norte-americana The Atlantic publicou uma lista das 50 histórias de amor inesquecíveis da literatura em língua inglesa. A publicação pediu a um grupo de acadêmicos, bibliotecários, críticos, autores de gêneros variados, além de colegas da redação, que indicassem seus títulos favoritos. O resultado final foi uma seleção de romances, poesia, peças de teatro e contos que vão de 1591 a 2024.

E. M. Forster está representado na lista por Maurice, seu romance póstumo. Quem escolheu e comentou sobre a obra foi Adam Kirsch, editor sênior da The Atlantic e escritor. Ele é autor de On Settler Colonialism e The Revolt Against Humanity: Imagining a Future Without Us. 



"Em 1913, Forster teve uma experiência que mudaria sua vida: um homem tocou em sua 'parte traseira — gentilmente e logo acima das nádegas', como ele descreveu mais tarde. Forster tinha 34 anos e já era consagrado como um dos melhores romancistas da Inglaterra, mas nunca havia se reconciliado com sua homossexualidade, muito menos escrito sobre ela. Então, ele decidiu trabalhar em uma história de amor entre dois homens. O que tornou Maurice revolucionário foi a insistência de Forster em que Maurice Hall, o protagonista reprimido e de classe média, não tivesse um final trágico — o destino comum dos personagens gays na ficção da época. Em vez disso, ele e Alec Scudder, um guarda-caça da classe trabalhadora, se apaixonam e, como Alec declara, decidem que 'não serão mais separados, e está acabado'. Mesmo depois de concluir o romance, Forster sentiu que ele era radical demais para ser publicado. Quando finalmente foi lançado em 1971, após sua morte, Maurice já parecia um pouco antiquado para os críticos. Mas ainda hoje, existe um grande poder na emoção desprotegida do romance — a felicidade trêmula de um desejo realizado."

— Adam Kirsch

 

A experiência citada no início do texto de Adam Kirsch é contada por E. M. Forster na Nota Final de Maurice, escrita em setembro de 1960. Quem lhe tocou as costas foi George Merrill, companheiro de Edward Carpenter. O relacionamento do casal foi a inspiração para o romance. 

Além de Maurice, a lista conta com livros como Evelina, de Frances Burney; Persuasion, de Jane Austen; Giovanni’s Room, de James Baldwin; e Brokeback Mountain, de Annie Proulx. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

E. M. Forster na ERA

Alguns dias atrás, quando me deparei com o conteúdo do print abaixo, fiquei bastante entusiasmado.

Clique na imagem para acessar a página de A Room with a View (1973) no site ERA.

Infelizmente, a animação durou pouco, pois logo percebi que não teria acesso à adaptação de A Room with a View, de 1973, da BBC. O motivo é bem simples: todos os conteúdos da plataforma ERA (Educational Recording Agency) são exclusivos para estudantes e profissionais de instituições de ensino do Reino Unido. 

A Agência de Gravações Educacionais, em tradução livre, é uma organização sem fins lucrativos, responsável pela administração do ERA Licence, que permite que escolas, faculdades e universidades gravem, baixem, armazenem e transmitam programas de TV e rádio, para fins estritamente educacionais e não comerciais. Mais de 95% das instituições de ensino britânicas têm licença para esse serviço. BBC, ITV e Channel 4 são somente alguns dos membros que cedem conteúdos gratuitamente para a organização. 

Com isso, o cadastro de pessoas alheias à esse contexto é inviável. Leia-se: brasileiros que não estudam ou não trabalham em instituições britânicas, como eu que vos teclo. O catálogo é imenso, cheio de materiais audiovisuais que são verdadeiras preciosidades. São múltiplos os conteúdos da BBC, responsável pela maioria das adaptações da obra de E. M. Forster para rádio e TV. 

Resta-nos apenas observar quais títulos relacionados a Forster fazem parte da plataforma de streaming da ERA. 


Clique na imagem para acessar a página de E. M. Forster no site ERA.

No total, são onze conteúdos, entre adaptações para rádio e TV, leituras radiofônicas de livros, análises e programas sobre romances e filmes. Uma observação: a página do escritor na plataforma ERA contém um programa intitulado A Good Read - Jan Ravens and Anne Enright, porém o mesmo não tem ligação com E. M. Forster e sim com a romancista Margaret Forster. 

De qualquer forma, fica a informação para aqueles habilitados a se cadastrar na ERA, mas que ainda não tinham conhecimento desse serviço. Logicamente, é possível que tais conteúdos cheguem para o público em geral na internet, mas não pretendo entrar nessa seara, já que isso aconteceria por meios ilegítimos.