quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Maurice, inesquecível

Ilustração: Marine Buffard.

O site da revista norte-americana The Atlantic publicou uma lista das 50 histórias de amor inesquecíveis da literatura em língua inglesa. A publicação pediu a um grupo de acadêmicos, bibliotecários, críticos, autores de gêneros variados, além de colegas da redação, que indicassem seus títulos favoritos. O resultado final foi uma seleção de romances, poesia, peças de teatro e contos que vão de 1591 a 2024.

E. M. Forster está representado na lista por Maurice, seu romance póstumo. Quem escolheu e comentou sobre a obra foi Adam Kirsch, editor sênior da The Atlantic e escritor. Ele é autor de On Settler Colonialism e The Revolt Against Humanity: Imagining a Future Without Us. 



"Em 1913, Forster teve uma experiência que mudaria sua vida: um homem tocou em sua 'parte traseira — gentilmente e logo acima das nádegas', como ele descreveu mais tarde. Forster tinha 34 anos e já era consagrado como um dos melhores romancistas da Inglaterra, mas nunca havia se reconciliado com sua homossexualidade, muito menos escrito sobre ela. Então, ele decidiu trabalhar em uma história de amor entre dois homens. O que tornou Maurice revolucionário foi a insistência de Forster em que Maurice Hall, o protagonista reprimido e de classe média, não tivesse um final trágico — o destino comum dos personagens gays na ficção da época. Em vez disso, ele e Alec Scudder, um guarda-caça da classe trabalhadora, se apaixonam e, como Alec declara, decidem que 'não serão mais separados, e está acabado'. Mesmo depois de concluir o romance, Forster sentiu que ele era radical demais para ser publicado. Quando finalmente foi lançado em 1971, após sua morte, Maurice já parecia um pouco antiquado para os críticos. Mas ainda hoje, existe um grande poder na emoção desprotegida do romance — a felicidade trêmula de um desejo realizado."

— Adam Kirsch

 

A experiência citada no início do texto de Adam Kirsch é contada por E. M. Forster na Nota Final de Maurice, escrita em setembro de 1960. Quem lhe tocou as costas foi George Merrill, companheiro de Edward Carpenter. O relacionamento do casal foi a inspiração para o romance. 

Além de Maurice, a lista conta com livros como Evelina, de Frances Burney; Persuasion, de Jane Austen; Giovanni’s Room, de James Baldwin; e Brokeback Mountain, de Annie Proulx. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

E. M. Forster na ERA

Alguns dias atrás, quando me deparei com o conteúdo do print abaixo, fiquei bastante entusiasmado.

Clique na imagem para acessar a página de A Room with a View (1973) no site ERA.

Infelizmente, a animação durou pouco, pois logo percebi que não teria acesso à adaptação de A Room with a View, de 1973, da BBC. O motivo é bem simples: todos os conteúdos da plataforma ERA (Educational Recording Agency) são exclusivos para estudantes e profissionais de instituições de ensino do Reino Unido. 

A Agência de Gravações Educacionais, em tradução livre, é uma organização sem fins lucrativos, responsável pela administração do ERA Licence, que permite que escolas, faculdades e universidades gravem, baixem, armazenem e transmitam programas de TV e rádio, para fins estritamente educacionais e não comerciais. Mais de 95% das instituições de ensino britânicas têm licença para esse serviço. BBC, ITV e Channel 4 são somente alguns dos membros que cedem conteúdos gratuitamente para a organização. 

Com isso, o cadastro de pessoas alheias à esse contexto é inviável. Leia-se: brasileiros que não estudam ou não trabalham em instituições britânicas, como eu que vos teclo. O catálogo é imenso, cheio de materiais audiovisuais que são verdadeiras preciosidades. São múltiplos os conteúdos da BBC, responsável pela maioria das adaptações da obra de E. M. Forster para rádio e TV. 

Resta-nos apenas observar quais títulos relacionados a Forster fazem parte da plataforma de streaming da ERA. 


Clique na imagem para acessar a página de E. M. Forster no site ERA.

No total, são onze conteúdos, entre adaptações para rádio e TV, leituras radiofônicas de livros, análises e programas sobre romances e filmes. Uma observação: a página do escritor na plataforma ERA contém um programa intitulado A Good Read - Jan Ravens and Anne Enright, porém o mesmo não tem ligação com E. M. Forster e sim com a romancista Margaret Forster. 

De qualquer forma, fica a informação para aqueles habilitados a se cadastrar na ERA, mas que ainda não tinham conhecimento desse serviço. Logicamente, é possível que tais conteúdos cheguem para o público em geral na internet, mas não pretendo entrar nessa seara, já que isso aconteceria por meios ilegítimos. 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

The Machine Stops em IA


Kuno na superfície da Terra em cena do curta The Machine Stops, feito com IA por James Peck.


Em The Machine Stops, E. M. Forster concebeu o arquétipo de dependência tecnológica. Isso há quase 117 anos - o conto foi publicado em novembro de 1909. Na atualidade cada vez mais dominada por inteligência artificial, o dilema ético discutido é a perda da autonomia humana e como as pessoas otimizam suas vidas e tarefas a ponto de ficarem encurraladas.

Diante dessa realidade, não seria irônico que The Machine Stops recebesse uma adaptação audiovisual totalmente produzida por meio de inteligência artificial? Foi isso que James Peck fez. E ele tem consciência da ironia envolvida:

"Nunca fiz um filme antes, nem qualquer tipo de produção em vídeo, mas sempre tive uma vontade criativa. Com os recentes avanços nas ferramentas de vídeo com IA, pensei em finalmente tentar, e que história melhor para contar do que uma sobre a crescente dependência da humanidade em relação à tecnologia e a perda da criatividade humana? A ironia não me escapa! Aprendi muito durante o processo e há muitas coisas que faria diferente se o fizesse novamente, mas me diverti muito criando. Espero que gostem pelo que ele é", diz Peck na descrição do seu vídeo no YouTube.

Confira o curta-metragem The Machine Stops em IA:


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Capas dos livros de E. M. Forster

Ao pesquisar capas dos livros de E. M. Forster, já havia me deparado com estas que ilustram o post de hoje. Contudo, sempre acreditei que se tratavam de publicações estrangeiras. Eu não fazia a menor ideia de que estas edições pertencem ao catálogo de uma editora brasileira.

O selo W. Books, da editora Ciranda Cultural, publica livros em inglês no Brasil desde meados de 2025, quando foi lançado oficialmente na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Seu catálogo contempla obras para os públicos infantil e adulto, como foco especial nos clássicos da literatura mundial.   

De E. M. Forster, o selo W. Books publica Howards End, A Passage to India e A Room with a View, com textos integrais. Os três títulos foram publicados em 11 de setembro de 2025, dentro da Classics Collection. Infelizmente, os livros de Forster não foram agraciados com capa dura, como acontece com grande parte dos lançamentos do selo. A encadernação é mesmo em brochura. 

Retomando a velha tradição de escolher minha capa favorita em posts desse tipo, não posso deixar de optar por A Passage to India. A capa de A Room with a View foge um pouco ao padrão por não contar com a moldura presente nas demais.

Clique na capa para ser redirecionado (a) à página do livro correspondente no site do Grupo Ciranda Cultural.




domingo, 18 de outubro de 2026

Bom domingo e boas leituras

A estação ferroviária de King’s Cross (no final do século XIX), que para Margaret Schlegel "sempre sugerira o infinito".


"Aqueles dois grandes arcos, sem cor, indiferentes, sustentando no meio um relógio desgracioso, eram portais feitos para alguma aventura eterna, cujo desenlace podia ser próspero, mas certamente não seria expresso na linguagem banal da prosperidade."
 (Howards End, Capítulo II)


 Imagem: Internet Archive.

sábado, 17 de outubro de 2026

E. M. Forster & Surrey

O site do jornal The Telegraph listou as dez aldeias mais bonitas do condado de Surrey, no sudeste da Inglaterra. O ranking foi organizado pela escritora de viagens Kathryn Liston e conta com sugestões de divertimento, hospedagem e curiosidades. Dois vilarejos escolhidos por Kathryn tem ligação com a biografia e a literatura de E. M. Forster. 


9. Abinger Hammer


É impossível não notar Jack, o Ferreiro, o famoso morador da vila. Ele bate as horas com seu martelo no relógio que fica suspenso sobre a A25, rodovia que corta a vila. O relógio, doado em memória do primeiro Lorde Farrer de Abinger Hall, que faleceu em 1899, simboliza o papel que Surrey e a Abinger Hammer Mill, também chamada de Forja de Abinger, desempenharam na indústria do ferro.

No entanto, o principal atrativo aqui é o rio Tillingbourne, com suas águas calmas. Você verá crianças brincando na água com redes de pesca, tentando pegar peixinhos. Para ser sincero, não há muito além de um campo de críquete – você pode até assistir a uma partida no verão – e uma loja/casa de chá que serve sanduíches, bolos e chá em xícaras de porcelana fina.


Jack, o Ferreiro, posicionado na torre do relógio do vilarejo, bate as horas com o seu martelo. | Foto: Alamy Stock Photo.


O vínculo de E. M. Forster com o vilarejo de Abinger Hammer começou ainda na infância e duraria por toda a sua vida. Ele viveu lá com sua mãe por mais de duas décadas, de 1925 a 1946, em West Hackhurst, uma casa projetada pelo seu próprio pai, cujo arrendamento o escritor herdou após o falecimento de sua tia paterna Laura. 


1. Holmbury St. Mary


Vale muito a pena dirigir até esta charmosa vila nas belas colinas de Surrey. Ela é frequentemente apelidada de Pequena Suíça devido à forma como suas casas imponentes estão espalhadas pelas encostas de Holmbury Hill. Algumas casas de fazenda datam do século XVII.

A vila possui os atributos habituais: um parque; a imponente Igreja de St. Mary, com seus sinos, projetada pelo arquiteto vitoriano George Edmund Street; dois pubs; dois cafés; e, claro, vistas fabulosas. Você estará em boa companhia, pois caminhantes, ciclistas e praticantes de mountain bike vêm em massa para explorar as trilhas e caminhos de Holmbury, Leith e Pitch Hills.


Holmbury St. Mary também é conhecida como Pequena Suíça. | Foto: Alamy Stock Photo.


Aldeia vizinha a Abinger Hammer, Holmbury St. Mary teria inspirado Forster na criação da Summer Street, em A Room with a View. É lá que fica localizada a casa dos Honeychurches, Windy Corner, nos arredores da cidade de Tunbridge Wells (hoje Royal Tunbridge Wells). 

Apesar do The Telegraph ser a fonte original, foi através do site SurreyLive que tive conhecimento desse conteúdo. Joseph Bickle, que repercutiu o ranking no SurreyLive, faz referência a E. M. Forster quando comenta sobre Holmbury St. Mary e foi isso que me atraiu à sua matéria.

Uma nova vista em Portugal


Ainda neste mês, a editora Clube do Autor vai lançar uma nova edição de Um Quarto com Vista em Portugal. É o primeiro livro de E. M. Forster a entrar para o catálogo da editora. 

Atualmente em pré-venda, a nova edição será lançada em 27 de outubro e faz parte da coleção Os Livros da Minha Vida. Infelizmente, o nome do tradutor ou tradutora não consta na página do livro no site da Clube do Autor e minhas pesquisas foram infrutíferas a esse respeito. Caso obtenha essa informação futuramente, atualizarei o post. De qualquer forma, é possível ler um trecho da tradução do primeiro capítulo no site. 

Com encadernação em brochura, a edição conta com uma bela capa. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Maurice no Egyptian Theatre


Queer, Period terá início na próxima semana, se estendendo até novembro. | Imagem: Site Egyptian Theatre.

Maurice (1987) será um dos filmes exibidos no Egyptian Theatre, em Los Angeles, como parte de sua nova série Queer, Period, uma celebração do drama histórico LGBTQ+ no cinema. O longa de James Ivory, restaurado em 4K, vai abrir a programação na próxima quarta-feira, 21 de outubro. 

Os curadores da série são os cineastas Javier Calvo  e  Javier Ambrossi, diretores de La Bola Negra, que estreia hoje nos cinemas. Queer, Period marca a chegada do novo longa da dupla e se inspira em sua história de liberdade, legado e visibilidade LGBTQ+. 

Até o dia 21 de novembro, os interessados e felizardos poderão assistir ainda Querelle (1982), Orlando (1993), Carol (2015), The Handmaiden (2016) e Portrait of a Lady on Fire (2019). 

Que grande experiência apreciar Maurice em 4k na tela desse palácio do cinema clássico, verdadeiro ícone da Era de Ouro de Hollywood. A maioria de nós fica apenas a suspirar.
 

A suntuosa fachada do Egyptian Theatre, em Los Angeles. | Imagem: Site Egyptian Theatre.


Em tempo: No The Paris Theater, também em Nova York, o Queer, Period começou na semana passada e tem programação até 22 de dezembro. Por lá, Maurice será exibido em 15 de novembro. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A Passage to India, por DeVita

A capa da releitura de A Passage to India e o dramaturgo Doug DeVita. | Imagens: Next Stage Press e Site oficial Doug DeVita.


Semana passada, o dramaturgo nova-iorquino Doug DeVita lançou sua adaptação de A Passage to India em formato de livro. A obra foi publicada pela Next Stage Press, que se define como "uma pequena editora de peças teatrais que, geralmente, são ignoradas pelos grandes grupos editoriais".

A releitura assinada por Doug DeVita tem sido descrita como ousada e provocativa. O texto dá vazão às paixões ocultas, subtexto homoerótico, desejos e tensões emocionais e românticas que ficaram latentes no clássico devido às restrições da época de sua publicação.

O elenco da peça é formado por seis homens e três mulheres, que se movimentam num cenário minimalista durante mais de 90 minutos. Narrada em estilo teatral de contador de histórias, a trama se desenrola em um ritmo frenético e emocionalmente intenso. 

O site ArtsIndependent traz algumas informações que merecem destaque:

"Para DeVita, o impulso de adaptar A Passage to India não nasceu de um exercício acadêmico, mas de uma relação profundamente pessoal, que já dura décadas, com o texto. Ele teve seu primeiro contato com a narrativa no início de 1985, através da adaptação cinematográfica de David Lean, de 1984.

'Fiquei tão impressionado com o filme que assisti a três sessões em um único dia', lembra DeVita. 'No dia seguinte, corri para a Barnes & Noble para comprar o livro e o li inteiro naquela noite.'

[...] 'Por mais abrangente que seja A Passage to India, em sua essência é uma história íntima de três pessoas: Dr. Aziz, Adela Quested e Cyril Fielding, juntamente com Mahmoud Ali, amigo de longa data do Dr. Aziz', observa DeVita. 'Tudo o que fiz foi centrar uma história de amor em seres humanos perdidos que encontram o caminho de volta para si mesmos — suas próprias passagens para a Índia, por assim dizer.'"

A peça foi encenada pela primeira vez em 20 de julho deste ano, no Cullum Theatre, que integra o complexo do American Theatre of Actors (ATA), em Nova York (veja convite ao lado). Essa apresentação foi exclusiva para profissionais do setor, como produtores, agentes, diretores de elenco, especialistas da área e representantes da imprensa.  

O elenco contou com Joy Franz (Mrs. Moore) e David Sabella (Mr. McBride), ambos colaboradores de longa data de DeVita, além de Nitin Madan, Chris Ikner, Marie Eléna O'Brien, Anuj Parikh, David L. Carson, Patricia Randell e Benjamin I. Cardona.

Ao que parece, essa apresentação especial em julho não gerou interesse suficiente nos profissionais da indústria teatral – e consequente financiamento – para levar o espetáculo ao grande público. 

Espero estar equivocado a esse respeito e que, em breve, possa noticiar uma temporada da adaptação. De acordo com o site oficial do dramaturgo, a peça está atualmente em fase de desenvolvimento e disponível apenas para leituras exploratórias. É possível ler o primeiro ato completo no site da Next Stage Press. 

O evento de lançamento do livro, na semana passada, em Nova York, teve debate com o público, sessão de autógrafos e gravação ao vivo do podcast The Drama Book Show!, com a participação de Doug DeVita. Tudo aconteceu na livraria The Drama Book Shop. A seguir, confira o episódio do podcast, que conta com um trecho da peça representado ao vivo: 



UPDATE 16/10/2026: A página do podcast The Drama Book Show! no Instagram postou hoje sobre a participação de Doug DeVita. O elenco de A Passage to India também esteve presente. 



Doug Devita e o co-host do podcast, David Rigano.



Os atores Joy Franz e Nitin Madan encenam um trecho da peça para o podcast.  



O dramaturgo e o elenco. Primeira fila, da esquerda para a direita: Joy Franz, Patricia Randell, Doug DeVita, Carole Monferdini, Marie Eléna O'Brien. Segunda fila, da esquerda para a direita: Nitin Madan, Anuj Parikh, David Sabella, Mary Powellson, David Carson, David Mackler.

Fotos: Dan Lane Williams. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

E. M. Forster em ucraniano

As capas de A Room with a View (Кімната з видом) e Maurice (Моріс). | Foto: Osnovy.


Há pouco mais de um ano, a editora Osnovy anunciou a publicação da coleção completa dos romances de E. M. Forster pela primeira vez em ucraniano. Em 2026, um terço do projeto já foi concretizado, com o lançamento das traduções de A Room with a View (Кімната з видом) e Maurice (Моріс). O próximo será Where Angels Fear to Tread (Куди бояться забрідати ангели), o único dos seis romances que até hoje não temos traduzido para o português brasileiro. 

A tradução dos dois livros já publicados é de Iaroslava Strikha, crítica literária e doutora em Estudos Literários pela Universidade de Harvard. Já as belas ilustrações são de Glyn Boyd Hart, o mesmo artista que assina as gravuras dos romances de Forster lançados pela editora independente londrina The Folio Society. 

Com capa dura e sobrecapa, são edições luxuosas. Um trabalho primoroso. Recentemente, a editora divulgou uma imagem da capa e sobrecapa de sua edição de Where Angels Fear to Tread, na qual está trabalhando ativamente, com previsão de entrar em pré-venda nos próximos meses. Veja a seguir:




Abaixo, mais algumas fotos das edições já lançadas.