Em A Room with a View (1985), Daniel Day-Lewis deu vida a Cecil Vyse.
Durante minhas pesquisas diárias sobre notícias e conteúdos relacionados a E. M. Forster sempre encontro novidades até certo ponto interessantes, mas não o suficiente para motivar um post avulso. Por isso, imaginei que seria uma boa ideia fazer posts ocasionais reunindo essas notas e informações breves. Espero que seja útil.
O nome da nova seção é Cecil Vyse Sugere simplesmente porque queria personalizá-la com uma figura forsteriana e deixar a coisa um pouco mais espirituosa. O esnobe Cecil não é nenhum grande exemplo, mas é uma figura bem singular em A Room with a View e, de certa forma, tem uma tímida redenção ou modificação positiva na sua despedida.
Vamos, então, às sugestões do Sr. Vyse.
Em 20 de novembro, o The Morningside Institute, em Nova York, vai promover o seminário The Wish of the Machine: E.M. Forster and Technological Worship (O Desejo da Máquina: E. M. Forster e o Culto Tecnológico, em tradução livre). Os temas abordados serão "os impulsos religiosos dos tecnólogos de hoje e os usos da ficção distópica para discussões racionais sobre inteligência artificial".
O ministrante será Nathaniel Ijams, diretor de Operações do instituto e graduado em História pela Universidade de Columbia.
The Morningside Institute é uma organização sem fins lucrativos independente fundada em 2017, que promove debates sobre humanidades, artes e filosofia para estudantes universitários e recém-formados.
Falando em The Machine Stops, o conto distópico tem lugar garantido em duas listas publicadas nos últimos dias:
"A história de Forster prevê muito mais do que o avanço tecnológico. [...] A rede global é uma previsão notável; o alerta da história sobre a dependência dela é o que mantém o livro atual."
"Ao escrever que o homem está sendo 'estrangulado nas vestes que teceu', Forster implica que o domínio genuíno da tecnologia requer a capacidade de viver sem ela."
No site da tradicional revista The American Scholar, a escritora Bonnie Friedman publicou um ensaio sobre uma mudança pessoal em relação à literatura: a capacidade de recordar do que leu mesmo após bastante tempo. Ela cita Howards End para exemplificar o momento de virada:
"Li devagar, sublinhando, desenhando estrelas, rabiscando anotações nas margens. Isso me permitiu perceber como Forster organizava os pontos da trama como peças de dominó bem próximas umas das outras. Agora eu também conseguia ver a importância estratégica do crescendo dramático que leva ao que alguns romancistas chamam de cena de fogos de artifício, que nas mãos de Forster transforma tudo, e que ocorre por volta dos 70% do livro, marcando o fim do longo segundo ato. Depois que percebi esse ponto de virada, ele me vinha à mente sempre que pensava no romance. O livro agora tinha uma forma, que se tornou uma espécie de recurso mnemônico visual, e a cena dos fogos de artifício evocava as cenas que a antecediam e as que a sucediam."
Pelo menos dois clubes de leitura internacionais estão lendo E. M. Forster.
O primeiro é em Sirmione, uma pequena comuna italiana da região da Lombardia. E vejam só, o livro escolhido é The Machine Stops. O Sirmione Book Club English, como o próprio nome diz, dedica-se a obras em língua inglesa. A discussão do livro de Forster será em 12 de novembro, na Sirmione Public Library, quando a próxima leitura já será anunciada.
Continuam saindo excelentes reviews da peça A Room with a View, em cartaz no Belvoir St. Theatre, em Sydney, sobre a qual falei dias atrás por aqui. Confira mais algumas:
Rupert Graves (John Beaver) e James Wilby (Tony Last) em cena de A Handful of Dust, lançado menos de um ano depois de Maurice (1987). | Foto: IMDB.
O filme de Charles Sturridge, que também dirigiu Where Angels Fear to Tread (1991), é excelente, com exceção do desfecho desesperador de Tony Last, personagem de James Wilby. Todavia, esse final é fiel à obra de Waugh, conforme minha pesquisa posterior.
O ranking elaborado por Nick Levine traz os três filmes baseados em obras de Forster. A Room with a View (1985) é descrito como o filme que fez a reputação da Merchant Ivory ser ampliada e Howards End (1992) como a mais bem realizada entre as três adaptações. Coloco aqui o texto referente a Maurice (1987), que traz uma curiosidade sobre o relacionamento de Ismail Merchant e James Ivory.
5. Maurice (1987)
A segunda adaptação de E. M. Forster pela Merchant Ivory narra o amor queer em uma época em que a homossexualidade na Inglaterra era ilegal. James Wilby estrela como o personagem-título, um estudante de Cambridge que percebe que é gay quando o arrojado colega estudante Clive Durham (Hugh Grant) confessa seu amor por ele. É um estudo comovente do desejo reprimido, que se torna especialmente comovente pelo conhecimento de que Ivory e Merchant eram extremamente discretos sobre seu próprio relacionamento romântico pelo bem da família conservadora deste último.
A genial Emma Thompson ganhou o Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em Howards End (1992). | Foto: Getty Images.
A 93ª cerimônia do Oscar acontece neste domingo em Los Angeles, Califórnia. Diferentemente do que tenho feito nos últimos anos, neste não me dediquei à uma maratona de filmes indicados, tendo assistido somente alguns da categoria principal. Faltou ânimo.
Mas este post rápido é só para lembrar que já tivemos aqui no blog uma série de posts sobre os filmes baseados em obras de E. M. Forster que foram indicados ao prêmio mais importante do cinema mundial. No total, foram 29 nomeações, com oito vitórias.
Para rever ou ver pela primeira vez, basta clicar nos links abaixo:
Depois do blu-ray de Retorno a Howards End (1992), agora é a vez da edição de Uma Janela para o Amor (1985). Esse item chegou à minha coleção em março de 2018, um mês depois do blu-ray de Retorno a Howards End. Adquiri na extinta Livraria da Folha e o valor pago foi consideravelmente alto: R$ 72,02 (R$ 49,90 + R$ 22,12 de frete), mais que o dobro do item anterior. Hoje, continua disponível em várias lojas online, por preços mais em conta.
📀 Características gerais
Lançada pela Versátil Home Vídeo em 2012, a edição é simples, com disco único. Na capa temos uma imagem demasiadamente escurecida da cena final do longa, o destaque para os trêsOscars conquistados e o nome do diretor em evidência. A contracapa traz as informações tradicionais: sinopse, títulos dos materiais extras, dados de elenco e produção e especificações técnicas. Um detalhe curioso é que o texto da sinopse atribui a Lucy uma personalidade "rebelde", o que, convenhamos, é questionável.
A qualidade de imagem e as legendas não deixam a desejar. As duas fotografias a seguir são apenas ilustrativas, visto que foram tiradas diretamente da tela do televisor e não fazem jus à real qualidade de imagem da mídia.
Para alegria dos colecionadores, possui arte interna. Em qualidade de impressão razoável, a cena escolhida foi a do emblemático primeiro beijo de Lucy Honeychurch (Helena Bonham Carter) e George Emerson (Julian Sands).
O menu animado é bonito e bem feito, e seu único defeito é não possuir música. Desta forma, vemos as cenas em movimento, porém sem qualquer som. Não custava nada terem adicionado um trecho da trilha sonora do filme.
📀 Especificações técnicas
Resolução: 1080 High Definition;
Idioma: Inglês;
Áudio: DTS-HD 5.1, Dolby Digital 5.1;
Legendas: Português;
Formato de tela: Widescreen anamórfico 1.85:1;
Tempo de duração: 117 minutos;
Região: A;
Cor: Colorido;
Não recomendado para menos de 14 anos
Tema: Relações humanas;
Contém: Diálogo adulto.
📀Materiais bônus
O blu-ray de Uma Janela para o Amor contém o dobro de materiais extras da edição de Retorno a Howards End. São quatro, todos legendados.
- Entrevistas (07'04'')
São duas entrevistas de elenco ao Breakfast Time, programa informal da BBC apresentado todas as manhãs na Grã-Bretanha nos anos 80. A primeira entrevista é com o ator Simon Callow (Mr. Beebe), gravada pouco depois do término das filmagens e veiculada em 17 de julho de 1985. A segunda é com Daniel Day-Lewis (Cecil Vyse) e foi exibida em 10 de abril de 1986, na manhã anterior à estreia real em Londres.
- Reportagem da BBC (03'20'')
Reportagem exibida no programa Breakfast Time, da BBC, em 30 de junho de 1986. Delineia os motivos para o sucesso de A Room with a View em sua estreia nos Estados Unidos. A reportagem é do jornalista Tom Brooke.
- Um tributo a James Ivory e Ismail Merchant (05'11'')
Apanhado da trajetória da Merchant Ivory Productions, exibido no programa Film 96. Contém entrevistas com o produtor Ismail Merchant e o diretor James Ivory. Os atores Helena Bonham Carter e Hugh Grant também fazem participações.
- Relembrando E. M. Forster (26'25'')
Programa com nota de falecimento de E. M. Forster, transmitido pela BBC em 14 de julho de 1970, pouco mais de um mês após a morte do escritor. Apresentado por James Mossman, o programa tem a participação de Lord Annan, Christopher Isherwood, Frank Kermore, George Steiner e Richard Marquand.
Todos esses conteúdos bônus são verdadeiros presentes para os admiradores do longa. É sempre muito interessante e curioso assistir entrevistas e reportagens da época do lançamento do filme. Mas claro que o destaque fica para o programa com nota de falecimento de E. M. Forster, veiculado na BBC. Com cerca de meia hora de duração, traz depoimentos de pessoas que conviveram com o escritor, uma cena da adaptação de Howards End de 1970 para a série BBC Play of the Month, além de imagens de Forster em seus aposentos no King's College, em Cambridge. Um deleite que também está disponível em nosso canal no YouTube (sem legendas em português).
📀Avaliação
O blu-ray de Uma Janela para o Amor é um item caprichado que faz jus ao excelente filme. Recomendo, sem sombra de dúvida.
A atriz do post de hoje participou de dois filmes baseados em obras de E. M. Forster num período de três anos. No final dos anos 90, ela abandonou a carreira de atriz e posteriormente se tornou uma bem-sucedida escritora.
Kitty Aldridge
A primeira participação se resume à uma única cena. Em A Room with a View (1985), a atriz aparece nos últimos minutos como a "nova Lucy", na ocasião em que George Emerson (Julian Sands) e Lucy Honeychurch (Helena Bonham Carter) estão de volta à Pensão Bertolini, em Florença. Acompanhada de uma senhora (Matyelock Gibbs) semelhante à Charlotte Bartlett (Maggie Smith) durante o jantar, a jovem demonstra sua frustração por não ter sido acomodada num quarto com vista, referência direta ao início do romance quando Lucy e Charlotte passaram pela mesma situação naquele mesmo local. Ao escutar o lamento da moça, George não se faz de rogado e afirma "We have a view" (Nós temos uma vista), segurando a mão de sua amada.
Em Maurice (1987), a atriz interpretou uma homônima: Kitty Hall, uma das duas irmãs do protagonista. Nenhuma delas possui muito espaço no filme, mas Kitty aparece menos ainda que Ada (Helena Michell). Para a senhora Hall (Billie Whitelaw), Kitty tinha o "mesmo cérebro" de Maurice, deixando claro que ambos tinham modos de pensar e agir semelhantes. Quando comparada à Ada, Kitty é descrita como aquela de "qualificações ainda mais escassas. Era menos simplória, bonita e rica do que a irmã". Já para o doutor Barry (Denholm Elliott), "havia sinais de coragem nela".
Em 2018, publiquei uma série de sete posts sobre os atores e atrizes recorrentes em filmes baseados em obras de E. M. Forster. Comecei com a recordista Helena Bonham Carter, que participou de quatro produções, e encerrei com Judy Davis, que esteve em duas. Recentemente, enquanto produzia o vídeo com o antes e depois do elenco de Maurice (1987), percebi que pelos menos três atores ficaram de fora da lista e por isso estou retomando esta série, que ficará em aberto caso identifique mais algum exemplo de ator ou atriz recorrente em adaptações forsterianas. Desta vez, os três atores destacados são intérpretes de personagens secundários.
Comecemos com um ator que, num período de três anos, esteve em duas destas adaptações.
Patrick Godfrey
Dono de extenso currículo no cinema, este consagrado ator esteve em A Room with a View no ano de 1985. Godfrey deu vida ao reverendo Cuthbert Eager, um ingês residente em Florença. Tradicionalista, rude e austero, o capelão aparece pela primeira vez dando uma palestra na igreja de Santa Croce, onde é interrompido pelo Sr. Emerson (Denholm Elliott). Posteriormente, o detestável reverendo perpetua o falso boato de que o Sr. Emerson assassinou a esposa, porém isto não é mostrado no filme.
É durante uma excursão pelos arredores de Florença, organizada por Mr. Eager, que acontecem duas cenas de destaque, presentes tanto no livro quanto no filme. Na primeira, o clérigo se mostra um genuíno estraga-prazeres ao arruinar a diversão de Faetonte (Luca Rossi) e Perséfone (Isabella Celani) na carruagem rumo às colinas. Na segunda cena, George Emerson (Julian Sands) rouba um beijo de Lucy Honeychurch (Helena Bonham Carter) pela primeira vez.
Em 1987, Patrick Godfrey interpretou Simcox na adaptação de Maurice. Mordomo de Pendersleigh (Penge no livro), a casa dos Durham, Simcox adquire maior relevância no filme, visto que é retratado como um empregado que claramente suspeita da verdadeira natureza do relacionamento de Clive e Maurice. No livro, ele é um simples criado que atende Maurice durante sua estada em Penge. No capítulo 40, após receber uma carta de Scudder, Maurice chega a imaginar que o guarda-caças e o mordomo são aliados numa tentativa de incriminá-lo ou chantageá-lo, mas não passa disso. No filme, é Simcox que, com um olhar de surpresa e reprovação, vê Maurice e Clive abraçados enquanto passa de bicicleta em frente à Goblin House (A Casa do Duende).
É curioso notar que, em ambos os filmes, os personagens de Patrick Godfrey podem ser considerados inimigos do amor. Enquanto em A Room with a View, isso é simbolizado pelo momento em que Mr. Eager efetivamente atrapalha um momento de troca de carícias entre Faetonte e Perséfone, em Maurice, o seu personagem não tem a autoridade para confrontar o patrão e o protagonista, mas mesmo assim provoca apreensão e inquietude com sua postura maliciosa em relação ao casal.
Neste domingo, 13 de dezembro, a primeira adaptação de A Room with a View para o cinema completa 35 anos. A premiere do filme aconteceu na edição de 1985 do Royal Command Film Performance, em Londres.
Para marcar a data, escolhi esta bela foto do diretor James Ivory com as atrizes Helena Bonham Carter (Lucy Honeychurch) e Judi Dench (Eleanor Lavish) durante as gravações do irretocável longa.
Confira um trecho do que Claudia Willen, autora da publicação, destacou sobre o filme:
"O repórter do The New York Times, Vincent Canby, chamou o filme de 'férias fora do tempo. É uma jornada para outra dimensão, pois viaja dos cenários perigosamente sedutores de Florença, com seus odores desagradáveis e glórias renascentistas, até as paisagens mais serenas da Inglaterra, onde guerras não declaradas são travadas sobre xícaras de chá'".
Na lista, A Room with a View está acompanhado, é claro, de filmes excelentes, como Pride and Prejudice (2005) e 12 Years a Slave (2013).