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sábado, 19 de setembro de 2020

Pharos and Pharillon - Parte II


Leitura comentada


Recentemente, enquanto lia Pharos and Pharillon, fiz rápidas anotações sobre cada um dos seus capítulos. Compartilho-as a seguir:

PHAROS

O Farol de Alexandria ilustrado pelo arqueólogo alemão Herman Thiersch em 1909. Imagem: Ullstein Bild via Getty Images.


Pharos - Em três partes, Forster faz um resumo da trajetória do memorável Farol de Alexandria, da sua construção à ruína. Ele explica como era a a estrutura física do farol, porque era tão necessário para Alexandria e a extrema importância que teve no imaginário dos habitantes da cidade;

The Return From Siwa - O segundo capítulo trata da fundação de Alexandria por Alexandre, o Grande, em 331 a.C. "Ele veio com Dinócrates, seu arquiteto, e ordenou que ele construísse, entre o mar e o lago, uma magnífica cidade grega". Além disso, traz um pequeno panorama da vida e conquistas de Alexandre;

Epiphany - As circunstâncias da ascensão ao trono de Ptolemeu V Epifânio, em 204 a.C, após os assassinatos de seus pais, o faraó Ptolemeu IV Filópator e a rainha Arsínoe III. Retrata as conspirações que levaram Agátocles, o primeiro ministro, a ser regente e guardião do órfão, a revolta do povo e as mortes dos assassinos;

Philo's Little Trip - O episódio em que o imperador romano Calígula recebeu uma delegação de judeus alexandrinos, liderados por Fílon de Alexandria, em 40 d.C. O objetivo da delegação era tratar dos conflitos civis entre judeus alexandrinos e a comunidade grega;

Clement of Alexandria - Controvérsias teológicas dentro do Judaísmo, seguidas por um pequeno histórico da contribuição de Clemente de Alexandria ao Cristianismo. Clemente foi um escritor, teólogo e apologista cristão grego nascido em Atenas. Também fala sobre alguns de seus tratados, como Exortação aos Gregos;


A antiga basílica de Santo Atanásio, em Alexandria, mais tarde mesquita de Attarine. Gravura de Baltard e Giraud, 1822. 


St. Athanasius - Dividido em duas partes, trata da história de Atanásio de Alexandria, arcebispo da cidade, doutor e santo da Igreja Católica, e suas disputas com Ário, o fundador da doutrina arianista, considerada herege; 

Timothy The Cat & Timothy Whitebonnet - O assassinato do Patriarca Protério de Alexandria por monges instigados por Timothy Ailuros e a ascensão deste ao patriarcado; 

The God Abandons Antony - Poema de C. P. Cavafy.


PHARILLON

Eliza in Egypt -  Em quatro partes, narra parte das traumáticas aventuras da viajante Eliza Fay no Egito;

Cotton from the Outside - Em três partes, o pandemônio na Bolsa de valores de algodão, principal cultura de Alexandria e visita a Minet el Bassal, local onde o produto era vendido;

The Den - As incursões de Forster por locais de venda ilegal de haxixe em Alexandria. O escritor acompanhou uma operação policial em busca do entorpecente. Baseado em experiências de maio de 1916;


Cartão postal da Rua Rosette, em 1916. Foto: Delcampe. 


Between the Sun and the Moon - A história da Rua Rosette, que por "seu comprimento, limpeza e monotonia refinada de sua arquitetura" supera as outras que "disputam a honra de ser a principal via de Alexandria";

The Solitary Place - Descrição do oeste do Egito e das espécies de flores lá encontradas;

The Poetry of Mr. Cavafy - Suas impressões acerca do poeta greco-alexandrino e sua obra. Contém trechos de poemas como The City Ithaca, além de Alexandrian Kings na íntegra. 


A recepção da crítica


Rose Macaulay. Foto: Sasha/Hulton Archive/Getty Images.
Pharos and Pharillon recebeu avaliações mistas da crítica. Além de julgar positivamente a obra, a escritora Rose Macaulay, autora de The Writings of E.M. Forster (1938), nos conta a reação de D. H. Lawrence ao livro enviado por Forster:

"Gostamos das joviais, carinhosas e emocionantes luzes de comédia que iluminam para nós os caminhos antiquados da história. Os comentários de D. H. Lawrence, dados a Forster em uma carta, são, como sempre, egocêntricos e perspicazes: 'Obrigado por Pharos e Pharillon, que eu li. Triste como sempre, como uma alma perdida chamando Icabod. Mas prefiro a tristeza ao Stracheyism [referência a Lytton Strachey]. Para mim você é o último inglês. E eu sou o único depois disso.'" 

Lawrence escrevia diretamente da cidade alemã de Baden-Baden, em 19 de fevereiro de 1924. 

Uma crítica de 1923 no Times Literary Supplement, também elogia Pharos and Pharillon:


"A sina da guerra lançou o Sr. Forster sobre Alexandria, e Alexandria lançou seu feitiço sobre ele. [...] a história de Alexandria, vista (ou refratada) pela mente do Sr. Forster, se torna uma manifestação de si mesma. [...] "Pharos e Pharillon" - exceto um ensaio que lembra Strachey - é integralmente peculiar e bom. Portanto, concluímos que em Alexandria, o Sr. Forster encontrou um lar espiritual; o peixe estranho achou mais fácil respirar naquelas águas suspeitamente cristalinas. Se ele sabia o que tinha acontecido no momento em que chegou lá, ou se foi seu encontro com o Sr. Cavafy e seu reconhecimento dele como um exilado do mundo de coisas que simplesmente são o que são chamadas - não importa o que o encorajou..."

Bombardeio de Alexandria, em 11 de julho de 1882.
Logo após elogiar Alexandria: A History and a Guide em seu livro intitulado simplesmente E. M. Forster, o crítico literário americano, Lionel Trilling, não tem uma avaliação positiva sobre o seu sucessor:

"Muito menos pode ser dito sobre Pharos and Pharillon, outra incursão na história alexandrina e na cor local. O volume é infundido com a aridez que foi observada anteriormente como falha nos primeiros ensaios históricos de Forster; os anos apenas o intensificaram. 

Sob a implacável gentileza de Forster, o passado se torna o que nunca deveria ser, singular, inofensivo e ridículo. Menelau, Alexandre, os Ptolomeus, os judeus, os árabes, os teólogos cristãos, o próprio farol, todos ficam submersos em alta ironia. Essa falta de gosto desesperadamente persistente é ainda mais surpreendente, porque Forster a caracterizou tão corretamente em um de seus melhores ensaios, The Consolations of History.

[...] Uma única sentença de Pharos and Pharillon aponta para longe deste antiquarianismo esbelto e festivo; ao falar de Fort Kait Bey, Forster menciona os buracos "feitos pelo almirante Seymour quando bombardeou o forte em 1882 e lançou as bases de nossa relação com o Egito moderno".

Dois destaques


Li Alexandria: A History and a Guide Pharos and Pharillon em sequência. Apreciei ambos, mas o segundo capturou bem mais minha atenção e proporcionou uma leitura mais prazerosa e estimulante. Meus ensaios favoritos são Pharos The Den, na primeira e segunda partes, respectivamente. Destaco dois trechos de Pharos logo abaixo e em seguida reproduzo um fragmento bem interessante sobre a concepção de The Den, encontrado no livro de Wendy Moffat, A Great Unrecorded History: A New Life of E. M. Forster

Trecho de Pharos:

"Assim como o Parthenon havia sido identificado com Atenas, e São Pedro [a praça] deveria ser identificado com Roma, para a imaginação dos contemporâneos, 'O Pharos' se tornou Alexandria e Alexandria, o Pharos. Nunca, na história da arquitetura, um edifício secular foi assim adorado e levado a uma vida espiritual própria. Ele iluminou a imaginação, não apenas os navios, e muito tempo depois que sua luz foi extinta, memórias dele brilhavam nas mentes dos homens."

"[...] Então veio a lanterna. A lanterna é um quebra-cabeça, porque parece ter compartilhado sua área estreita com uma fogueira e delicados instrumentos científicos. Os visitantes falam, por exemplo, de um misterioso 'espelho' lá em cima, que era ainda mais maravilhoso do que o próprio edifício. O que foi esse espelho e por que ele não rachou? Um refletor de aço polido para o fogo à noite ou para heliografia durante o dia? Alguns escritores o descrevem como feito de vidro finamente forjado ou pedra transparente, e declaram que, quando sentados sob ele, podiam ver navios no mar que eram invisíveis a olho nu. Um telescópio? É concebível que a escola alexandrina de matemática e mecânica tenha descoberto as lentes e que sua descoberta foi perdida e esquecida quando o Pharos caiu?"

Trecho de A Great Unrecorded History: A New Life of E. M. Forster, de Wendy Moffat, sobre o ensaio The Den:

"Ele [Forster] explorou as ruas sinuosas de Alexandria, os lugares onde um homem sem mapa se perderia. E pesquisou ativamente a cidade secreta do vício. Usando suas conexões dentro do Escritório de Censura, Morgan fez amizade com um oficial egípcio na polícia. Ele pediu que o oficial encontrasse um esconderijo de haxixe fora do alcance das autoridades britânicas. Hash era considerado uma droga mais terrível que o ópio. No relato público - 'The Den', em Pharos and Pharillon - ele moldou a expedição como um divertido esboço de cores locais com um toque especial. O den desaponta. Nenhuma droga é encontrada, e a expedição se torna uma ocasião para zombar do desejo inglês de uma experiência exótica emocionante. Mas em sua carta particular a Edward Carpenter, ele confessou uma história muito diferente com uma moral bem diferente. 

Aqui,  Morgan deixou claro que o episódio o excitou sexualmente. O vício em drogas e o vício sexual tinham a mesma raiz, e ele estava profundamente envolvido na busca por ambos.

'Subimos as escadas escuras em uma favela e arranhamos uma porta no topo... Empurramos e encontramos uma pequena e bem-educada companhia fumando a droga, silenciosa e lânguida. Havia uma garota árabe, com os pés descalços, muito jovem e cansada, e alguns atendentes jogando cartas juntos - para não falar de ruídos estranhos em salas fechadas. Um dos meninos fez um sinal para mim. Eu não respondi, mas ele veio e sentou-se... no banco. Na verdade, ele era um jovem de extraordinária beleza e charme, muito grande, bem constituído e viril, apesar da delicadeza dos lábios e da suavidade dos olhos. Ele usava garabia e tarboosh, não falava italiano e eu não falava árabe. Os outros meninos - com trajes europeus e menos charmosos - também faziam sinais. Todos - exceto nós mesmos - fumavam. Eu teria fumado se estivesse sozinho.'

Esse episódio sedutor foi interrompido, como costumava ser para Forster, pela chegada dos europeus. 'Três... jovens elegantes de chapéu de palha, provavelmente vendedores italianos' entraram e estragaram o clima. [...] 'Bem, agora, com a devida consideração pelo censor, indiquei o que para mim foi uma noite interessante e até atraente. Eu me senti curiosamente em casa naquele covil de vício.'"

Cartas 


A seguir, quatro cartas trocadas entre E. M. Forster e C. P. Cavafy, sendo três durante a concepção de Pharos and Pharillon e uma depois da publicação do livro. Clique nas imagens para ampliar. 



07 de julho de 1922 - Carta de E. M. Forster para C. P. Cavafy. Ele diz ao poeta que deseja incluir o artigo The Poetry of C.P. Cavafy, publicado em The Athenaeum, em seu novo livro sobre Alexandria e pede sua aprovação. 





31 de dezembro de 1922 - Carta de E. M. Forster para C. P Cavafy. O escritor dá notícias sobre a publicação de Alexandria: A History and a Guide, sem mencionar o nome da obra, e faz referências aos poemas In the Month of Hathor e The God Abandons Antony, de Cavafy. Ele ainda inclui um rascunho do índice de Pharos and Pharillon, apresentando o conteúdo e a estrutura de seu novo trabalho.






05 de julho de 1923 - Carta de E. M. Forster para C. P. Cavafy. Forster o informa sobre a recepção de Pharos and Pharillon e relata o interesse da editora Chatto & Windus nos poemas de Cavafy e a possibilidade de publicá-los na Grã-Bretanha. Forster pede que Cavafy solicite mais traduções de seus poemas a George Valassopoulo.





07 de outubro de 1923 - Carta de C. P. Cavafy para E. M. Forster, com comentários positivos sobre Pharos and Pharillon. O poeta agradece pelo exemplar que recebeu e afirma que apreciou muito o livro. Ao final, agradece pelo artigo sobre sua obra. 


Capas



Fontes de pesquisa: 
E. M. Forster (1943), de Lionel Trilling;
An E. M. Forster Chronology (1993), de J. H. Stape;
The Writings of E.M. Forster (1938), de Rose Macaulay;
Alexandria Still: Forster, Durrell, and Cavafy (1977), de Jane Lagoudis Pinchin;
A Great Unrecorded History: A New Life of E. M. Forster (2010), de Wendy Moffat;

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Pharos and Pharillon - Parte I

Após Alexandria: A History and a Guide, E. M. Forster não demorou muito para publicar um novo livro acerca da cidade onde viveu por três anos durante a Primeira Guerra Mundial. Enquanto estava em Alexandria, trabalhando como pesquisador voluntário na Cruz Vermelha, Forster publicava artigos e ensaios na imprensa local. Os temas mais comuns eram a história da cidade, suas impressões pessoais do local e as experiências ali vivenciadas desde 1915. 

Alguns dos artigos e ensaios escritos nessa época, além de outros concebidos posteriormente, seriam compilados num livro publicado em 1923, um ano depois de Alexandria: A History and a Guide. O autor o intitulou Pharos and Pharillon


Antecedentes

O Palácio do Khedive em Alexandria, 1900. Foto: Historic Maps/Ullstein Bild via Getty Images.

"Eu queria que você estivesse aqui comigo em Montazah esta manhã. É o palácio de campo do ex-Khedive e foi transformado em um hospital para convalescentes. Entre seus bosques de tamariscos e aléias de oleandros floridos, em seus recifes e fantásticos promontórios de pedras e areia, centenas de jovens estão brincando, pescando, montando burros, deitados em redes, andando de barco, nadando, ouvindo bandas. Eles andam de peito nu e pernas nuas, o azul de seus shorts de linho e o lilás pálido de suas camisas acentuando o esplendor marrom de seus corpos; e, junto ao mar, muitos deles passam metade dos dias nus e sem repreensões... É tão bonito que não consigo acreditar que não foi premeditado."

Era verão de 1916 quando E. M. Forster escreveu estas palavras ao amigo Goldsworthy Lowes Dickinson (1862-1932), cientista político e filósofo britânico. Goldie - como era chamado pelos mais íntimos - também era homossexual e deve ter apreciado a descrição da idílica cena, já que costumava ter paixões reprimidas por homens mais jovens. Para Forster, aquela certamente era mais uma cena alexandrina que despertava anseios há muito refreados e que efervesciam sua alma e corpo. Ele estava com 37 anos e ainda não tinha experimentado o sexo. 

Em correspondência com outro amigo, o poeta Edward Carpenter (1844-1929), o escritor não descreve uma pitoresca cena à beira-mar, mas sim desabafa sobre seus desejos febris:

"Não quero ficar resmungando, pois está tudo bem comigo, mas essa solidão física se prolonga por muitos meses, e com isso brota e cresce uma fastidiosidade miserável, de modo que, mesmo que a oportunidade pela qual anseio seja oferecida, temo que eu possa recusar. Em tal recusa, não há nada espiritual - é um sinal de que o espírito está sendo despedaçado. Tenho certeza de que algumas das pessoas decentes que vejo diariamente estariam dispostas a me salvar se soubessem, mas elas não sabem, não podem saber - fico sentado um pouco inclinado sobre elas e aí termina - exceto por imagens que me inflamam durante o sono. Sei que, embora você já tenha ouvido esse e outros casos mais tristes mil vezes antes, continuará sendo compreensivo, e é por isso que me conforta tanto. É horrível viver com um desejo insatisfeito, de vez em quando sufocando, mas nunca matando ou mesmo desejando. Se eu pudesse ter uma noite sólida, seria alguma coisa."

Militares e médicos durante a Segunda Guerra Mundial, em Alexandria, 1917. Foto: Delcampe.


Como nos conta Wendy Moffat em A Great Unrecorded History: A New Life of E. M. Forster, "o clima sexual de Alexandria era atraente, mas perigoso" e "em todos os lugares havia convites que não podiam ser aceitos". Em 1917, para aplacar a avidez que o consumia e registrar o que experienciava em Alexandria, Forster decidiu escrever - desde o ano anterior ele não se dedicava à prática. Mas não um romance, - o último havia sido publicado seis anos antes - e sim pequenos ensaios sobre ciscunstâncias e personalidades históricas da cidade, além de suas incursões e descobertas naquela que foi a capital do Egito por mil anos. 

Para fechar este primeiro trecho, um irônico detalhe: Montazah, aquele paraíso descrito em carta para o amigo Goldie, ficaria marcado para sempre na vida de Forster como o lugar onde, posteriormente, ele acabou fazendo sexo pela primeira vez. 


As publicações em jornais egípcios


Os artigos e ensaios escritos por Forster durante esse período foram publicados no The Egyptian Gazette e no The Egyptian Mail, jornais em língua inglesa, sediados no Cairo, que haviam se associado pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Enquanto o Mail era publicado pela manhã, o Gazette costumava sair à noite. A maioria absoluta dos escritos de Forster foi veiculada no The Egyptian Mail e faziam parte de uma série chamada Alexandria Vignettes. Ele os assinava simplesmente como Pharos

Aqui vamos nos deter aos ensaios e artigos que mais tarde iriam integrar Pharos and Pharillon, mas Forster escreveu e publicou vários outros ao longo dos anos em que esteve no Egito. A maior parte deles nunca foi republicada e hoje está longe dos olhos do público na coleção de jornais da British Library

O primeiro artigo saiu em 1917. Intitulado Eliza in Egpyt: Alexandria in 1779, Some Amusing Impressions, seria publicado em Pharos and Pharillon com o título simplificado de Eliza in Egypt. Forster narra a tumultuosa passagem de Eliza Fay (c.1755/1756-1816) pelo Egito no verão de 1779, a partir das célebres cartas desta dama viajante. Na gravura ao lado, ela foi retratada por Arthur William Devis. 

A primeira parte do artigo foi publicada no The Egyptian Gazette em 05 de abril, a segunda no dia 16 do mesmo mês e a última em 11 de maio. Em Pharos and Pharillon, o artigo está dividido em quatro partes. Uma informação adicional é que, em 1925, o escritor editaria o livro Eliza Fay's Original Letters from India (1779-1815), um compilado das correspondências sobre as quais havia se debruçado anteriormente. 

Eliza in Egpyt: Alexandria in 1779, Some Amusing Impressions foi o único publicado no The Egyptian Gazette. Todos os demais saíram nas páginas do The Egyptian Mail

A seguir, a cronologia das publicações originais destes artigos e ensaios, que posteriormente seriam selecionados para Pharos and Pharillon


The Den, em 30 de dezembro de 1917;

Alexandria Vignettes: Cotton from the Outside, em 03 de fevereiro de 1918;

Alexandria Vignettes: The Solitary Place, em 10 de março de 1918;

Alexandria Vignettes: Between the Sun and the Moon, em 31 de março de 1918;

Alexandria Vignettes: The Return from Siwa, em 14 de julho de 1918;

Lunch at the Bishops (publicado como a 1ª parte de St. Athanasius em Pharos and Pharillon), em 31 de julho de 1918;


- A Little Trip (publicado como Philo's Little Trip em Pharos and Pharillon), em 31 de agosto de 1918;

Alexandria Vignettes: Epifhany, em 06 de outubro de 1918.


As publicações na Inglaterra pós-guerra


Uma capa da The Athenaeum em 1846.
Em 1919, Forster já estava de volta à Inglaterra. A guerra havia terminado no final de novembro de 1918 e agora ele começava a retomar sua vida normal. Além de trabalhar em Alexandria: A History and a Guide, que seria lançado somente em 1922, escrevia sobre política externa e publicava várias críticas literárias. Mas uma ocupação dos últimos anos permanecia: escrever artigos e ensaios sobre Alexandria. 

Desta vez eles não seriam publicados em jornais egípcios, mas sim na revista literária The Athenaeum, sediada em Londres. Na época, o editor da revista era seu amigo John Middleton Murry (1889-1957). Assim como Forster, outros membros do Bloomsbury Group costumavam colaborar com The Athenaeum, como T. S. Eliot, Virginia Woolf, Lytton Strachey e Clive Bell. Na biografia de seu amigo Goldsworthy Lowes Dickinson, o escritor manifesta sua admiração pela revista. 

"Foi um prazer ler e uma honra escrever nesse periódico que conectava literatura e vida."

Em 25 de abril de 1919, The Poetry of C.P. Cavafy estampou as páginas da The Athenaeum. Aquele era o primeiro ensaio desta nova fase e mais tarde também estaria em Pharos and Pharillon. Vejamos agora a cronologia dos demais artigos e ensaios publicados nesse período:

- 2ª parte de St. Athanasius, em 23 de maio de 1919;

- Timothy The Cat & Timothy Whitebonnnet, em 25 de julho de 1919;

- Clement of Alexandria, em 08 de agosto de 1919;

- Pharos
  • 1ª parte:  28 de novembro de 1919;
  • 2ª parte: 05 de dezembro de 1919;
  • 3ª parte: 12 de dezembro de 1919.


A compilação


Por volta de 1922 - ao mesmo tempo em que trabalhava naquela que seria sua obra mais aclamada, A Passage to India - Forster começou a selecionar alguns dos artigos e ensaios que publicara nos últimos anos para editá-los em forma de livro. Era o momento de coletar parte dos escritos que haviam saído nas páginas dos jornais The Egyptian Gazette e The Egyptian Mail, além da revista literária The Athenaeum

O escritor selecionou aqueles que, em sua visão, tinham potencial para atingir um público mais amplo e dividiu o livro em duas partes. A primeira, Pharos, em referência ao histórico Farol de Alexandria, trata de eventos antigos da cidade. Já a segunda, Pharillon, aborda eventos contemporâneos. No introdução do livro, após apresentar resumidamente a formação do território alexandrino ao longo dos séculos, Forster nos explica a divisão do livro e consequentemente o título da obra: 


O Farol de Alexandria imaginado por Johann Bernhard Fischer von Erlach, 1721. Imagem: The Print Collector/Getty Images.

"Essa é a cena em que ocorrem as seguintes ações e meditações; aquele cume de calcário, com um país aluvial de um lado e portos do outro, sobressaindo do deserto, apontando para o Nilo; uma cena única no Egito, e os alexandrinos nunca foram verdadeiramente egípcios. Aqui africanos, gregos e judeus se uniram para formar uma cidade; aqui, mil anos depois, os árabes deixaram débil, porém duradoura, a impressão do Oriente; aqui, depois da decadência secular, surgiu outra cidade, ainda visível, onde trabalhei ou pareci trabalhar durante uma guerra recente. Pharos, o vasto e heróico farol que dominava a primeira cidade - sob Pharos, agrupei alguns eventos antigos; aos eventos modernos e às impressões pessoais, dei o nome de Pharillon, o obscuro sucessor de Pharos, que se agarrou por algum tempo à rocha baixa de Silsileh e depois deslizou sem ser observado para dentro do Mediterrâneo."

Para encerrar a primeira parte, o escritor escolheu um poema do amigo C. P. Cavafy (1863-1933), The God abandons Antony. Muito apreciado por Forster, esse mesmo poema já havia sido utilizado para encerrar a primeira parte de seu livro anterior, Alexandria: A History and a Guide. Em carta a Cavafy, datada de 31 de dezembro de 1922, ele conta detalhes sobre a organização de seu novo livro, incluindo a cronologia dos ensaios. Ao final, parece querer se desculpar por tamanha carga de informações (veja imagem da carta original na parte II deste post especial):

"Eu não pretendia infligir tudo isso a você quando comecei [a carta]. Não mencione isso (isto é, os detalhes) a ninguém, pois de outra forma o ponto principal do meu trabalho cansativo deixará de ser uma surpresa". 


Uma dedicatória


Mohammed el Adl, em 1918. Foto: King's College, Cambridge.
Desde o início, a intenção de Forster era dedicar Pharos and Pharillon a Mohammed el Adl (c.1899-1922), o condutor de bondes egípicio com quem manteve um relacionamento em Alexandria. Porém, acabou se deparando com algumas dificuldades para concretizar essa ideia. Em carta à amiga Florence Barger (1879-1960), com quem mantinha franca correspondência sobre vários assuntos, ele descreve seu dilema:
"A Hogarth Press está publicando algumas das minhas coisas alexandrinas neste inverno. Deve ser um livrinho agradável. Eu o dediquei 'A...', porque desejava que meu próximo livro fosse de Mohammed, seja qual for a relação dele comigo, mas agora não gosto da dedicatória. Durante toda a sua vida, eu o silenciei e acho que devo colocar seu nome por completo. 

No entanto, não quero perguntas de pessoas de fora sobre quem é Mohammed. Você tem algum conselho, ou melhor, opinião sobre o assunto? Eu poderia aludir a ele por alguma paráfrase literária, mas eu odeio isso. Embora me ocorram duas palavras em grego que se encaixam extraordinariamente bem ao livro e a ele."

Esta última possibilidade aventada prevaleceu. A enigmática dedicatória em grego para Mohammed el Adl significa "Para Hermes, líder das almas"
Superado o dilema, em 13 de fevereiro de 1923, o escritor já estava conferindo as provas do seu novo livro, que seria publicado pela Hogarth Press. 



A publicação


A primeira edição de Pharos and Pharillon.
Apresentado como o novo livro do autor de Alexandria: A History and a Guide e Howards End, Pharos and Pharillon foi oficialmente publicado em 15 de maio de 1923 pela Hogarth Press, editora dos amigos Leonard e Virginia Woolf. Inicialmente foram impressas 900 cópias, que devem ter se esgotado rapidamente, pois a segunda tiragem já saiu no mês seguinte. 

O livro não demorou para ser lançado nos Estados Unidos e em 30 de julho já chegava às livrarias americanas pela editora Alfred A. Knopf. Aparentemente, apenas algumas das edições americanas contam com o subtítulo A Novelist's Sketchbook of Alexandria Through the Ages

Em sua segunda edição, consta que cinco dos capítulos do livro foram reimpressos por cortesia de The Nation and the Athenaeum e que o restante não havia sido publicado anteriormente na Inglaterra, referindo-se aos capítulos da primeira parte, Pharos, que haviam sido veiculados apenas nos jornais egípcios. Uma observação necessária: The Nation and the Athenaeum foi o jornal político formado em 1921 a partir da fusão da The Athenaeum e do The Nation. 

As vendas foram positivas. Em carta a C. P. Cavafy, de 05 de julho de 1923, Forster demonstra estar satisfeito com o desempenho do livro e dá boas novas ao poeta greco-alexandrino. Ele informa que, com a publicação de alguns de seus poemas e do ensaio The Poetry of C. P. Cavafy em Pharos and Pharillon, o interesse em seu nome está cada vez maior (veja imagem da carta completa na parte II deste post). Na verdade, esta foi a primeira aparição da obra de Cavafy em língua inglesa, o que foi crucial para que o poeta se tornasse conhecido em todo o mundo. 

Assim como em Alexandria: A History and a Guide, o autor agradece a Cavafy pela permissão para publicar seus poemas e a George Valassopoulo pela tradução dos mesmos. 



Tradução para o português... de Portugal


Pharos and Pharillon nunca recebeu - e dificilmente receberá - uma tradução para o português brasileiro, mas existe uma tradução para o português de Portugal. Com o título Pharos & Pharillon - Uma Evocação de Alexandria, a tradução é assinada por Jorge Ayres Roza de Oliveira e foi lançada no país europeu em 1992, pela editora CotoviaAo lado, a capa da edição. 

Jorge Ayres também é responsável por uma tradução de Maurice editada em Portugal em 1989, igualmente pela Cotovia. Infelizmente, o acesso a obra não é tão simples. Os sites portugueses que vendem o livro não enviam para o Brasil. 

O livro completo, em inglês, está disponível no Project Gutenberg: Pharos and Pharillon




Fontes de pesquisa: 
An E. M. Forster Chronology (1993), de J. H. Stape;
Goldsworthy Lowes Dickinson (1934), de E. M. Forster;
Alexandria Still: Forster, Durrell, and Cavafy (1977), de Jane Lagoudis Pinchin;
A Great Unrecorded History: A New Life of E. M. Forster (2010), de Wendy Moffat.