sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Inspiração no Surrey

Pintura de Holmbury St. Mary. | Foto: Dorking Museum.
Recentemente, falei de forma breve sobre o vilarejo Holmbury St. Mary, no condado de Surrey, que é apontado como a inspiração de E. M. Forster para a criação da Summer Street, em A Room with a View. 

O escritor viveu por mais de duas décadas com sua mãe na aldeia vizinha de Abinger Hammer e costumava visitar Holmbury St. Mary esporadicamente. Mesmo antes de se mudar para Abinger, Forster já frequentava o vilarejo desde a infância, em visitas a sua tia paterna Laura. 

O poeta e amigo Robert 'Bob Trevy' Trevelyan, seu contemporâneo da Universidade de Cambridge, morava em Holmbury, não muito distante de West Hackhurst, a casa onde Forster e sua mãe residiam. É possível supor que os amigos se visitaram algumas vezes, compartilhando o interesse em comum por literatura e música.

É na fictícia Summer Street que transcorre toda a segunda parte de A Room with a View, após os acontecimentos em Florença, Itália. Citada várias vezes no romance, é lá que fica situada Windy Corner, a casa da família Honeychurch, nos arredores da cidade de Tunbridge Wells (hoje Royal Tunbridge Wells) e onde moram outros personagens, como os Emersons e o pároco Sr. Beebe.   


Uma vista panorâmica de Holmbury St. Mary. | Foto: Dorking Museum.


Pois bem. Naquela ocasião, percebi que poderia explorar mais o assunto e creio que, antes de falar da inspiração em si, podemos começar pela tradução de Summer Street nas edições brasileiras. Aulyde Soares Rodrigues, que assina a tradução da editora Rocco publicada em 1988, optou por "bairro Summer Street", enquanto Marcelo Pen preferiu "rua Summer" na edição da Globo de 2006.

"A Srta. Honeychurch mora no bairro de Summer Street - disse a Srta. Bartlett, complementando a informação - e contou-me do curso de uma conversa que o senhor [Sr. Beebe] acaba de aceitar a residência..." (Primeira Parte, capítulo 1, "A Bertolini"; tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, 1988).


"A senhorita Honeychurch mora na paróquia da rua Summer", disse a senhorita Bartlett, explicando a alusão, “e ela justamente me contava, em meio à conversa, que o senhor acaba de aceitar a oferta..." (Parte I, capítulo 1, "A Pensão Bertolini"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Não pretendo entrar no mérito de qual tradução é a mais correta, contudo, se tivesse que escolher a que mais me agrada, seria a de Aulyde Soares, pelo simples fato de "bairro" englobar um espaço de maiores proporções e assim transmitir uma ideia mais ampla da vizinhança dos Honeychurch. É relevante mencionar que a absoluta maioria das fontes em inglês se refere a Summer Street como "village". 


O antigo Correio de Holmbury St. Mary, historicamente conhecido como "Post Office in the Pines" (Correio nos Pinheiros). Foto: Dorking Museum.


Vejamos mais um trecho em que o local é citado no romance:

"[...] Que lugar é este? [Cecil Vyse pergunta]

- Summer Street, é claro - disse Lucy, animando-se.

Os bosques se abriam agora, dando espaço para uma campina triangular e inclinada. Lindas casas alinhavam-se nos dois lados e a parte mais alta era ocupada por uma igreja de pedra recém-construída, de simplicidade dispendiosa, com uma torre encantadora. A casa do Sr. Beebe ficava ao lado da igreja. Em altura, ela mal se diferenciava das outras. Havia algumas mansões também, mas estavam escondidas pelas árvores. A cena sugeria uma montanha na Suíça mais do que o sacrário e centro de um mundo de lazer, só desfigurada por duas feiosas pequenas vilas - as vilas que haviam competido com o noivado de Cecil, compradas por Sir Herry [sic] Otway na mesma tarde em que Lucy fora adquirida por ele. 

Cissie, o nome de uma delas, Albert o da outra, estavam escritos em letras góticas sombreadas nos portões do jardim e repetidos nas varandas cobertas, onde seguiam a curva semicircular do arco de entrada em grandes maiúsculas. Albert estava ocupada. Seu jardim extremamente artificial cintilava com gerânios e lobélias entre conchas polidas. As pequenas janelas recobriam-se castamente com renda Nothingham. Cissie estava para alugar. Três tabuletas de agentes de Dorking balançavam na cerca do jardim, anunciando o fato não muito surpreendente. Os caminhos entre os canteiros já estavam cobertos de mato; seu gramado, do tamanho de um lenço, amarelado, cheio de dente-de-leão.

- Este lugar está arruinado! - disseram as senhoras automaticamente - Summer Street jamais será a mesma." (Parte II, capítulo 9, "Lucy como uma obra de arte"; tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, 1988).

Note que o narrador compara a cena à Suíça. É uma analogia mais que apropriada, visto que Holmbury St. Mary é conhecida como Pequena Suíça devido à forma como suas casas imponentes estão espalhadas pelas encostas de Holmbury Hill. O apelido certamente já existia na época de Forster. Falando em Holmbury Hill, sua encosta sul costuma ser apontada como a localização de Windy Corner. 


Ao fundo da paisagem, vê-se Holmbury Hill. | Foto: Ian Capper/Geography.org.uk. 


No capítulo 2, Lucy, em diálogo com a senhorita Lavish, dá mais detalhes da propriedade: 

"[...] Fica nas colinas de Surrey. Cerca de sete quilômetros de Dorking, com vista para a região do Weald."

"Oh, vocês têm propriedades em Surrey?"

"Quase nada", protestou Lucy, temerosa de ser considerada uma esnobe. "Somente trinta acres... apenas o jardim, todo o sopé do morro e uns prados." (Parte I, capítulo 2, "Em Santa Croce sem o Baedeker"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

O lago da famosa e divertida cena do banho ao ar livre de Freddy Honeychurch, George Emerson e Sr. Beebe, no 12º capítulo, teria sido inspirado em uma lagoa situada na trilha que leva ao topo de Holmbury Hill. E. M. Forster conhecia bem a geografia e os pequenos cursos d'água dessa área vizinha a Abinger Hammer. 

"Quer realmente nadar?", Freddy perguntou-lhe. "É somente um laguinho, sabe. Creio que deve estar acostumado com coisas bem melhores."

"Lá está o lago. Queria que fosse maior", ele ajuntou, em tom de desculpa. Desceram por uma ribanceira escorregadia, forrada de folhas de pinheiro. Ali repousava o reservatório, instalado em seu pequeno monte verdejante — apenas um laguinho, mas grande o bastante para conter um corpo humano, e límpido o bastante para refletir o céu. Por causa das chuvas, as águas avançaram pela grama circundante, que formavam como que uma bela trilha esmeralda, aliciando os pés na direção do poço central. "É evidentemente razoável, no quesito lacustre", sentenciou o senhor Beebe. "Não é preciso desculpar-se pelo lago."

Tratava-se de águas ordinárias; tampouco manavam em profusão. Além do mais, conforme Freddy declarou, davam aos banhistas a impressão de que nadavam numa salada. (Parte II, 12º capítulo; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Lago em Holmbury St. Mary (imagem apenas ilustrativa). | Foto: See Around Britain.


Alguns capítulos antes, Lucy se refere ao lago como "sagrado", durante um passeio com o noivo Cecil pelo bosque entre Summer Street e Windy Corner, pouco antes do primeiro beijo do casal. Esse adjetivo seria usado algumas outras vezes no romance para se referir ao lago, praticamente nomeando-o. 

Logo chegaram a uma pequena clareira entre os pinheiros — outro pequenino alpe verdejante, solitário desta feita, exibindo um laguinho raso em seu regaço.

Ela exclamou: "O Lago Sagrado!".

"Por que o chama desse jeito?"

"Não consigo atinar a razão. Suponho que seja por causa de um livro. É apenas um tanque agora, mas pode ver o regato que o atravessa? Bem, muita água chega com as chuvas torrenciais e, como não pode seguir adiante, toda de uma vez, o açude cresce e torna-se belo. Freddy costumava nadar aqui. Ele gosta muito do local." (Parte II, capítulo 9, "Lucy como uma obra de arte"; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

Em dos trechos acima, é citada a igreja da paróquia de Summer Street. Na parte mais alta do vilarejo, a "igreja de pedra recém-construída, de simplicidade dispendiosa, com uma torre encantadora" teve sua representação inspirada pela igreja de St. Mary the Virgin, o templo local de Holmbury, projetado pelo arquiteto George Edmund Street (1824–1881). 

"[...] sua igreja, erigida com tanto esmero na encosta de um morro, com seu belo transepto alto e torre de pedregulhos prateados [...]" (Parte II, capítulo 19, "Mentindo para o Senhor Emerson; tradução de Marcelo Pen, Globo, 2006).

A igreja de St. Mary the Virgin, em Holmbury St. Mary. | Foto: Dr. Neil Clifton/Geography.org.uk.


Além da pitoresca Holmbury St. Mary, o pequeno vilarejo vizinho de Friday Street, na encosta norte de Leith Hill, também costuma ser citado como uma das inspirações para Summer Street. 

Aqui, falamos especificamente sobre locais, todavia, é seguro afirmar que Forster também deve ter tomado vários habitantes da região como referências para construir os personagens de seu terceiro romance publicado.

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